—Ouça-me emquanto ella se ri, menina, que o que eu vou dizer-lhe ha de fazel-a chorar. Conheço muito bem que não tenho direito nenhum a pedir-lhe o amor, que se deve a uma mãe... Eu quasi que a não reconheci minha filha. Dei-a ao mundo, e o mundo assim como a fez feliz podia fazel-a muito mais desgraçada que eu sou... N'este mesmo momento, em que venho aqui expiar as minhas culpas, confessando-lhe que fui tão desnaturada mãe, olhe que lhe não tenho amor, nem me offendo com o seu desprêso. Por força assim devia ser... Se não fosse assim, eu não acreditava na justiça de Deus!... Se a minha filha me tivesse atirado com um pontapé á rua, eu havia de levantar-me, se podésse, para lhe dizer: «eu te perdôo, filha de Leonardo Taveira!» Veja que bom coração eu poderia ter-lhe dado, se tivesse, quando a expulsei de meus braços, um presentimento de que viria uma hora em que eu precisava das suas consolações...
D. Rosa chorava, e a propria criada sentia-se amollecer no coração.
—Entre para esta sala—disse a filha do arcediago commovida.
—Não entro, minha filha, eu vou retirar-me; disse-lhe tudo, levo o coração mais desabafado, e creio que a não offendi... Se a magoei, diga-m'o, que lhe quero pedir perdão.
—Entre...—balbuciou Rosa, offerecendo-lhe a mão..
—Não... já lh'o disse... aqui tem os seus dous vintens, molhados de lagrimas, que são a usura d'este emprestimo... Dentro d'essa sala não posso entrar como mendiga: se eu podésse visital-a, como senhora, viria muitas vezes aqui, e talvez lhe podésse fazer serviços que a poupassem a muitas desgraças no futuro... Assim... adeus!...
—Não consinto que se retire; quero informar-me de quem a senhora é. Se fôr minha mãe, hei de tratal-a como quem é...
—Por ser sua mãe, não sou ninguem, minha filha... A menina não me honra, nem me deshonra. Não tenho senão remorsos de a ter dado ao mundo, como posso eu ter vaidade de ser sua mãe!... Fique com Maria Sanctissima, e diga á sua criada que não é do agrado de Deus insultar assim as pessoas infelizes... Chame-a aqui, menina, que me quero despedir d'ella...
A criada veio, instada por D. Rosa.
—Não se afflija, moça!—disse Anna do Carmo—Não tenha pesar de me ter offendido, que eu perdôo-lhe de todo o meu coração... Tire d'aqui uma experiencia para todas as pessoas necessitadas... O seu zêlo por sua ama é demasiado... Receava que eu lhe pedisse algum vestidinho velho dos que vmc.e espera que sejam seus? Não vim a isso... E para que se lembre do que esta velha da mantilha rôta lhe disse, quero deixar-lhe uma lembrança de mim... Pegue lá...