Não bastariam para isso as dissipações que elle fizera do seu patrimonio. A mulher perdôa sempre os desperdicios de seu marido, com tanto que elles não envolvam uma affronta ao seu amor proprio, servindo de preço aos amores alheios que se vendem.

Não fôra, pois, o jogo que arruinara a felicidade de Rosa. Foi o descaro insultuoso com que Augusto, na sua penultima vinda ao Porto, lhe introduzira em casa a tricana das chinelas amarellas, mulher insolente que, authorisada pelo amante, ousara esbulhar os bragaes da casa, deixando a sua dona só os indispensaveis.

Estes vexames nunca se perdôam. A esposa, assim ultrajada, póde soffrel-os calada como martyr, mas não poderá nunca reservar um resto de affeição ao homem, que a humilhou assim.

Rosa entrou na sala em que era esperada. Quando deu de face com seu marido, que não vira nos ultimos seis mezes, desconheceu-o e recuou. Trazia a barba toda, que lhe augmentava a magreza cadaverica do rosto. Vestia uma velha sobre-casaca, de panno desbotado, encodeada na golla, e farpáda na botoadura. Os seus olhos pisados, mas ainda penetrantes do brilho da desesperação, fixavam Rosa com ar ameaçador.

Cruzando os braços com a importancia tragica d'um marido de tragedia, que vem, de longes terras, pedir contas a sua mulher, Augusto Leite disse, aproximando-se:

—Parece que me não conheces, Rosa?

—Vens tão mudado do que eras!... não admira que te não conhecesse, Augusto!

—Pois sou eu mesmo... Vejo que não sentes grande prazer com a minha visita...

—Não te esperava... Como ha seis mezes me não escreves...

—Entendeste que não havia nada commum entre nós... Pois, minha amiga, sou teu marido, apesar de ambos nós...