—Cala-te, Augusto, que me pareces demente!
—É porque eu realmente estou louco... Preciso sahir d'esta desgraçada vida em que me vejo... Quero dinheiro, Rosa, quando não vou com um bacamarte para as estradas...
—Augusto!—exclamou ella, tirando-lhe a mão do cabo do punhal, que empunhára instinctivamente no bolso interior do casaco.
—Tu não sabes onde a desgraça é capaz de me levar... A sociedade fez-me assim... Se perdi muito dinheiro, perdi o que era meu; não roubei nada a ninguem; e a sociedade infame despresou-me, chamou-me homem perdido, e cuspiu-me na cara, porque eu empobreci... Vi-me abandonado, e tornei-me criminoso... Estou cumplice n'um roubo, e, se dentro de tres dias, não dér um conto de reis, sou prêso, e degradado, ou pendurado n'uma forca.
—Oh meu Deus, que vergonha!...—disse Rosa, cahindo n'uma cadeira, e escondendo o rosto entre as mãos.
—Nada de exclamações... Esse remedio não me presta de nada... Visto que tens uma amiga rica do que era de meu tio, pede-lhe este dinheiro, se me queres salvar... Não me respondes?
—Augusto!... eu não posso responder-te já... Deixa-me possuir bastante do meu infortunio, para perder a vergonha...
—Isto não soffre delongas... Quero a resposta já...
—A resposta dou-lh'a eu—disse Maria Elisa, que apparecera de improviso.
Augusto cortejou-a ligeiramente, e Rosa ergueu-se tremula, e sentou-se logo, porque lhe faltavam forças para acolher-se ao seio da sua amiga.