Maria Elisa veio ter com ella, abraçou-a, deu-lhe um beijo, e levou-a comsigo para dentro. Voltando-se para Augusto, disse:

—Queira demorar-se, que eu volto já.

Augusto Leite sentiu um abalo que faria parecel-o louco a alguem que o visse. Não era loucura. Era o contentamento de se vêr possuidor d'um conto de reis, com o qual contava já. Era a esperança de transportar-se com elle a Hespanha a tentar a fortuna, visto que não poderia tornar a Lisboa, onde o perseguiam por crime de roubo de uns brilhantes, cujo valor perdera em menos de tres horas. Esta ideia salvadora produziu-lhe uma febre de loucura passageira. Encarou-se n'um espelho, e viu-se como um idiota, penteando as barbas com os dedos. Retesou os braços, espreguiçando-se, e murmurou por entre os dentes quasi cerrados: «ha um demonio, que me protege! Respeito-o mais que os sanctos, e hei de mostrar-lhe que sou agradecido...»

Maria Elisa voltou. Sentou-se no canapé, e fez signal a Augusto, offerecendo-lhe uma cadeira:

—Senhor Augusto, v. s.ª vai receber da minha mão uma quantia de dinheiro, que me não pertence, nem a sua mulher. É uma generosidade de sua filha, de que eu sou interprete...

—De minha filha?!

—Sim, senhor. Eu dei a quantia que vou confiar-lhe a sua filha, e fiquei sendo sua administradora. Quando ella estiver em estado de recebel-a, v. s.ª lh'a entregará. São tres contos de reis em notas. É um deposito sagrado que lhe confio. Espero que v. s.ª procure reconquistar a sua honra, e não lhe faltarão recursos para um dia entregar a sua filha esta quantia augmentada...

Augusto, balbuciante de prazer, não avistando d'um relance toda a extensão do seu futuro, murmurou:

—Eu farei por ser um digno depositario do dinheiro de minha familia.

—Agora, senhor, tenho a pedir-lhe um favor em nome d'ella.