Não lhe escrevi... por vergonha!... Ha de crêr-me, senhora! não tenho tido animo de ser eu o proprio accusador das minhas fraquezas incomprehensiveis! Tenho esperado o intervallo lucido d'esta demencia de seis dias, e as trevas cerram-se cada vez mais.
Que é o que se passa em minha alma? Que transfiguração se operou na minha vida? Que brinquedo cruel é este que vem ludibriar-me no canto esquecido em que me refugiei com as minhas desgraças?
A minha organisação está debaixo da terrivel influencia d'uma zombaria providencial! Eu era, ha oito dias, o homem morto para o futuro; as minhas alegrias resuscitava-as do tumulo mudo do passado; a minha vida era uma saudade que devia cegar-me os olhos da razão com o seu brilho sinistro, enlouquecendo-me, ou matando-me. Detestava o presente, porque debaixo dos meus pés estava o ardor do deserto, e nos horisontes da minha esperança... nem uma gôta d'agua que me apagasse este lume que me queima, sem o poder de aniquilar-me. Eu era isto! A solidão era-me cara. O tumulo de Helena povoava-se-me de anjos. A imagem d'ella, esboçada em cada téla que me rodeia, tinha uns olhos que choravam, mas os seus labios articulavam não sei que palavras animadoras, que me mandavam subir com o sorriso da resignação as escadas do meu patibulo.
E esta vida acabou para mim. A imagem de Helena fugiu lagrimosa e espavorida da solidão do meu quarto. A sepultura d'ella... é uma pedra êrma de phantasmas para mim. Comecei por descrêr das minhas passadas visões. Raciocinei friamente sobre a vida e a morte; sobre a belleza que foi, e o cadaver que é; sobre o coração arquejante de amor, e o coração minado de vermes.
Que é isto, pois? quem rasgou este véo diante de meus olhos? Que homem sou eu hoje, ou que homem fui durante dous annos de amargura incuravel?
Entre mim e Helena... está Rosa Guilhermina! Tenho o rubor do pejo na face, quando estas palavras me fogem do coração! Parece que a vejo contrahir uma visagem de indignado pasmo por tal mudança! O meu caracter apresenta-se-lhe uma inconcebivel monstruosidade! Vota-me um legitimo desprêso, desde este momento?
Primeiro me despresei eu a mim. Primeiro olhei eu, com asco, para a minha miseria. Antes de v. exc.ª recuar nauseada da baixa condição da minha alma, entrei eu na minha consciencia, e vi-me torpe, ingrato, insensivel, perjuro, e vil!
Tenho muito orgulho da minha honra; quero absolver-me d'esta deslealdade á memoria de Helena, e não posso. Vejo que é necessario ser cynico para me desculpar, escarnecendo as culpas que a sociedade me imputa. Não posso, não sei sêl-o, não está na minha mão rasgar o contracto que fiz com Helena, nos seus ultimos instantes.
Mas eu amo Rosa. Que sentimento é este? Como hei de convencer-me de que amo esta mulher? Se isto é uma illusão, como é que se dissipam estas chimeras?
Não sei! Lembra-me que senti uma commoção inexplicavel quando a vi chorar! Lembra-me que a vi n'um sonho, de que acordei balbuciando o seu nome com ternura. Lembra-me que desdenhei, acordado, a ternura do sonho... Mas a minha alma estava inquieta. O meu quarto parecia-me pequeno: este silencio entristecia-me... Faltava-me não sei que voz, que som dos anjos que me tinha ferido uma corda no coração!... Ri da minha fragilidade. Peguei d'um pincel... Disse á minha alma que lhe inspirasse os traços de Helena... e os olhos amortecidos de Rosa resaltaram-me do panno com duas lagrimas... Era a imagem d'ella, que se levantava de um tumulo a dizer-me: «Aqui tens lagrimas minhas; aqui tens um coração, que renasceu das minhas cinzas; aqui te dou a unica mulher, que póde supprir a que não terá para ti um sorriso sobre a terra... Vê que os vermes corroeram a minha face. Não te illuda uma esperança em outros mundos, porque os limites da vida são a campa... Eterna é só a materia; mas a materia que te feriu os sentidos, dissolveu-a o sôpro da desgraça...»