«—Se o amava!... Não se fazem essas perguntas a uma velha. O senhor ri de mim, se eu deixar fallar o coração, como elle, ainda ha trinta annos, lhe responderia.

«—Eu não posso rir do que a vida tem mais grave e triste...

«—O amor!... diz bem... É bem triste recordal-o; mas o ridiculo manda suffocar as expansões d'um coração, que não envelheceu ainda. Dizem que os cabellos brancos são veneraveis. Se o são, e só nos patriarchas, nos prophetas, e nos apostolos... Quer que lhe diga que amei Paulo? Pois sim... Amei-o muito... Conheci-o, já casada; mas eu fui uma esposa com todas as virtudes, e com a resignação para todos os sacrificios.

A filha do general *** amava Paulo.

A minha casa era o unico local onde se reuniam. Impuz-me esta violencia, e prestei-me ao doloroso serviço de os approximar, porque precisava matar um veneno com outro veneno.

Helena morreu, e Paulo refugiou-se a chorar comigo. Eu e o tumulo d'ella eramos o unico passatempo da sua atormentada existencia.

Enviuvei. Encontrei-o sempre a meu lado. Sondei com muita delicadeza a sua alma, e achei-a fria. Reconheci que era meu amigo, porque eu lhe fallava muito de Helena. Um homem assim não podia amar-me...

«—Porque não lhe revelou a sua alma?

«—Uma mulher, se não está gasta pela libertinagem, ou não é prodigiosamente estupida, nunca faz semelhantes revelações. Se elle me perguntasse se eu o amava, responder-lhe-ia que não, e córaria pela vergonha da mentira, ou pelo remorso da offensa... Dizem-me que as mulheres de hoje são faceis n'essas delações da sua alma. Se não é a moda que as absolve, o pudor de certo não é... Emfim, eu nunca lhe disse que o amava, nem elle me proporcionou occasiões de dizer-lh'o.

Um anno antes de conhecer essa mulher fatal...