E não.
A amante do arcediago vira, sem lagrimas, levar aquella menina do seu ventre para os braços mercenarios de uma ama de expostos. Não estendeu os seus, supplicando que lhe não roubassem a filha da sua alma, e da sua deshonra. Não pediu ao pae desnaturado que lh'a désse em compensação da renuncia, que ella fizera da sua dignidade. Não saltou, esvaída de sangue, fóra do leito, procurando resgatar a creancinha que deveria dar-lhe em amor de filha o premio da sua ignominia de amante.
Viu-a ir impassivel! Nunca lhe deu que pensar o destino da creança. Nunca sentiu o remorso do infanticidio. Nunca se lembrou que a desgraçada menina, que viu a chorar com frio e fome nas lages da rua, poderia ser a sua filha.
Os annos correram. O arcediago lançou um olhar melancólico ao futuro. Ambicionou uma herdeira, que fruisse o grosso cabedal que amontoava. E lembrou-se de ter assignalado, cinco annos antes, aquella engeitada.
Procurou-a com zêlo de pae; encontrou-a entre as meninas desamparadas, pallida de fome, e vestida de farrapos, apresentou-a a sua mãe, e sua mãe encarou-a serenamente, deu-lhe um beijo frio, e aconselhou o pae que a mandasse para um collegio.
Quando o pae extremoso, cheio de saudades, mandava buscar sua filha de seis annos, com os seus lindos cabellos louros, e os seus labios radiosos de innocentes sorrisos de gratidão, Anna do Carmo achava enfadonhas as repetidas visitas, e zangava-se asperamente se a menina batia com a faca no prato, ou pedia doces para dar ás suas companheiras.
Espanta-vos esta dureza d'alma? Entrai na enfermaria das que vão ser mães, debaixo das telhas da Misericordia. Reparai n'esta, que prepara risonhamente o cueiro e a faxa que ha de levar seu filho ao monturo dos filhos sem mãe. Olhai aquella que jura que o seu seio não tem nutrição para que a não obriguem a crear o seu filho. Vêde além outra, que crava as unhas no menino, que tem ao peito, para que os dolorosos vagidos da creança accusem a fome, e a seccura d'aquelle seio, que tem dentro morto o coração.
«Diante d'este quadro hediondo, tenho duvidado do amor materno! Compungido por esta verdade atroz, tenho collocado a hyena n'um grau de sensibilidade superior á mulher!» dizia-me um illustrado professor de medicina[2], que me expunha estes lances com as lagrimas nos olhos.
Não duvideis, pois, mães! Anna do Carmo chegaria sua filha ao seio; mas aquelle sangue não se alvoroçava nas arterias. Tocar-lhe-ia os labios com os seus, mas aquelle beijo fôra sempre a banal formalidade, que se barateia por ahi em cada cara que vos saúda.
Sobejavam-lhe razões para recear o desprêso da filha. A dura experiencia dissera-lhe que o castigo sobre a terra era infallivel.