Se aquella mulher tivesse sido a mãe d'aquella menina, sentiria um estimulo superior impellindo-a para ella. Iria, coberta de farrapos, lançar-se nos braços de sua filha, radiante de velludos e brilhantes. Iria, sem pejo, na presença de todo o mundo abraçar essa filha, com a certeza de que Rosa exclamaria na presença de todo o mundo: «Esta desgraçada mulher é minha mãe!» Pediu que lhe escrevessem uma carta; mas essas poucas palavras, que parecem o enigma d'uma grande dôr, nem suas eram. Foi uma cabeça fria, e um coração estranho, que as dictou; porque, na alma d'ella, estava a irresolução gelada, o presagio do desprêso, o espinho da consciencia, precursor d'um grande castigo.

Quando recebeu, como resposta á sua carta, o silencio, e quatro cruzados novos, Anna do Carmo sentiu-se assaltada pelo orgulho que não era orgulho de mãe. Era um rancor, que reagia ao desprêso, uma altivez que caracterisa as almas pequenas, e não essa nobre independencia, que nos manda atirar á cara do falso bemfeitor uma esmola, quando nos não é delicadamente dada como quitação d'uma divida.

Foi ella quem repelliu a esmola; mas não foi ella quem redigiu o bilhete que acompanhava a remessa. Por sua vontade, aquelle bilhete devia ser um insulto e uma ameaça; mas a pessoa que o escrevera previu que a mãe de Rosa seria brevemente uma mendiga, e precisaria de humilhar-se a estranhos, por ter sido soberba com sua filha.

Rosa Guilhermina meditou aquelle bilhete, e sentiu em si uma transformação repentina.

Ha pouco ainda, teve vergonha de declarar á sua amiga que sua mãe existia, e vinha pedir-lhe uma esmola; e agora é ella que sente a dura precisão de revelar a Elisa todo o seu segredo.

Elisa ouviu-a, e reprehendeu-a da inconfidencia, que a não lisongeava nada. Depois, aconselhou-a que desse uma mesada a essa pobre mulher, se a não queria receber em casa na qualidade de mãe.

Rosa optou pela mesada, e escreveu immediatamente uma carta a sua mãe com a direcção que lhe fôra indicada. Esta carta chegou nos assomos freneticos de Anna do Carmo. Sahiu com a carta para que lh'a lêssem: ouviu-a cada vez mais colerica, supposto que as phrases fossem brandas, e carinhosas. A offerta da filha era mais uma boa mesada, que permittisse a decencia de sua mãe. Anna tomou a carta com arremêsso, rasgou-a, e disse á portadora:

«Diga a essa desavergonhada que não preciso de suas mesadas; e que, se torna a mandar aqui alguem, que atiro pelas escadas abaixo quem cá vier... Pegue lá... dê-lhe a carta rasgada.»

D. Rosa, quando ouviu similhante resposta, voltou-se para a sua amiga, como quem pede um conselho:

—Não tens mais passo algum a dar—disse Elisa.—Mulher que assim responde não é tua mãe: isso é uma impostora! Faz de conta que este incidente não veio perturbar a nossa felicidade... Será tua mãe: mas só te conhece agora, que és rica, e ella pobre. Tal mulher não é digna de chamar-te filha!... Que lhe deves tu? O nascimento? Grande favor!... Se teu pae não tivesse esta riqueza, que te deixou, o que serias tu? Uma filha sem mãe, abandonada de todos, e despresivel aos olhos da propria que te atirou ao mundo como quem atira ao chão as rosas murchas, que lhe serviram de prazer e ornato!...