—Ora venha cá, Rosinha...—disse a snr.ª Angelica, pendurando a mantilha na porta, e acocorando-se n'um tapete, que ella suppoz ser feito para isso—Sente-se ao pé de mim.
—Eu não gosto d'essa posição, que é incommodativa. Sento-me n'esta cadeirinha.
—Pois sim; mas chegue-se bem para mim, que não quero que nos ouça a sua amiga. Deus me perdôe, mas não engraço com os modos d'ella... Aquillo não ha de ter bom fim... Tem muito palavriado... Ora diga-me, de que presta aquella rapariga?
—De muito; é a minha amiga do coração; conheço-a ha dois annos; quero-lhe como a ninguem, e basta.
—Está dito... Pelo que vejo, aqui não ha rei nem roque, e quem governa é vmc.e, não é verdade?
—É, sim, senhora. Quem governa em minha casa sou eu.
—Pois, minha menina, precisa de quem a governe. Os tempos não vão bons para as donzellas. Deus me perdôe se pecco, mas o diabo anda ás soltas entre as raparigas desde que os francezes vieram lá do fim do mundo ao Porto. No meu tempo não se ouvia dizer que uma rapariga namorava este nem aquelle. Hoje, bem dito seja Deus, quem tiver raparigas em casa, traga-lhe o ôlho em cima, senão, quando mal se precata, os peralvilhos... nem pensal-o é bom!... E más linguas? isso então é um louvar a Deus! Pois aquella grande bebeda da mulher do retrozeiro, que mora defronte de mim, não foi dizer ao meu Antonio que eu, quando era moça... em nome do padre, e do filho, e do espirito sancto... Cal-te bôca... Olhe que sempre! Ninguem diga que está bem! Uma desavergonhada assim! Estar eu mansa e quêda em minha casa, amando e servindo a Deus como posso, e nem ja como devo, e vai senão quando aquella lingua damnada não teve o ousio de fallar da minha conducta, que não teve nunca tanto como isto que se lhe pozesse (mostrando-lhe a ponta do dedo)! Ahi está por que Deus não manda chuva, e mandou a praga dos francezes para nosso castigo... é por causa da Anna Canastreira, e outras que taes... Aquella grande regateira! Atrever-se a pôr a bôca na minha honra! E ella? A porca, que andou... Cal-te bôca... E tem aquella de fallar em mim, que fui sempre como as estrellas, e que nunca houve na rua quem dissesse, com verdade, que me viu piscar o ôlho ao congregado, nem ao conego Anselmo! Inda a lingua se lhe tolha, e descanso não tenha ella de dia nem de noite sem me pedir perdão...
—Então é isso o que precisa dizer-me, snr.ª Angelica?
—Inda não chegamos lá, Rosinha. Isto vinha a respeito de dizer que as donzellas não estão seguras com esses melcatrefes que por ahi andam d'oculos, e polainas, que me parecem mesmo o demonio tentador!...
—Elles tentam-na, snr.ª Angelica?