E, dito isto, no mais rigoroso ademan do palco, retirou-se, deixando o capitão contristado, e condoido da sorte do pobre moço, que tão cêdo perdêra o gosto da vida.
Os passageiros da galera Boa-Sorte, informados pelo capitão, olhavam para Luiz da Cunha com certo ar de respeito e de triste curiosidade. O silencio funebre de tal homem, sombrio sempre, movêra o natural interesse dos sinceros companheiros, e não passára desapercebido a D. Marianna, supposto que as suas penas fossem de sobra, para se dar cuidado com as estranhas.
Luiz da Cunha felicitou-se do grande passo que déra. O que não parece nada, era já muito para elle. Esse interesse, essa especie de curiosa compaixão, o attencioso silencio com que duas palavras suas eram escutadas, eram, com effeito, acquisições, que lhe valiam, na opinião{114} d'aquelle publico, uma consideração, que ninguem contrariava.
Havia um só motivo, que descerrasse um ligeiro sorriso nos labios de Luiz: era o menino mais velho de D. Marianna, a criancinha de dous annos, que, attrahida pelos agrados do passageiro, lhe dava a preferencia nos carinhos. A mãe lisongeava-se d'este acolhimento, e chorava, porque mais vivas a assaltavam as recordações de seu marido, ao qual tão caros eram os afagos do menino.
Luiz, amestrado pelo contínuo estudo, não tratava de mitigar com o balsamo banal dos seus companheiros a ferida da saudosa viuva. Pelo contrario: dizia-lhe que chorasse, se perdêra um ente querido, um extremoso marido, metade da sua alma, o melhor da sua existencia, um homem digno d'ella. Como consolação, apenas lhe dizia que o encarasse a elle, e veria alli enxutos os olhos, que derramaram lagrimas de sangue, e por fim mirraram-se, como o coração exsangue, árido e resequido, debaixo da sua lousa. Dizia-lhe que para ella não era impossivel a ventura, porque, cêdo ou tarde, encontraria em um segundo marido o reflexo das virtudes do primeiro; seria, outra vez, ditosa, porque ha anjos privilegiados que o Altissimo não abandona, mesmo quando os deixa sósinhos na terra, onde encontrarão um amparo, que lhes adoce as saudades d'um outro partido, sob a lousa da sepultura.
Este estylo de cabeça não era mesquinho em figuras. Os periodos eram artisticamente arredondados, acizelados, torneados como os hombros d'uma estatua. Os discursos, sempre decorados da vespera, não tinham falha que os fizesse tinnir mal aos ouvidos de Marianna. Em tudo, e até nos improvisos, havia uma razão de ordem connexa, um rigor lógico de honradez, um espantoso triumpho da corrupção eloquente sobre o gaguejar da ingenuidade sempre boçal e descozida nos seus discursos.
Luiz da Cunha não se escondia para estes ligeiros dialogos com Marianna. Em occasião de almoço ou jantar, e não sempre, é que elle se interessava na conversa dos que por delicadeza procuravam consolar a viuva, sempre inconsolavel.
O pequeno Antoninho afizera-se tanto a Luiz, que chorava, se o não levavam de manhã ao beliche do seu{115} amigo. Marianna agradecia ao carinhoso soffredor de seu filho tantos favores, e ficava contente se Luiz lhe dizia que era devedor áquelle menino dos raros momentos de prazer, que Deus ainda lhe concedia por intermedio d'um innocente.
Vejam que estudo!
E assim passaram vinte dias de viagem. As amarguras de Marianna tinham transigido um pouco com a natureza, que parece não ter sido feita para os soffrimentos duradouros, e desmente sempre os propositos d'um lucto perpetuo, variando as sensações com magica destreza.