—Sim, senhor. Enviuvou ha dous mezes, e vai ao Brazil tomar conta da administração da sua casa. É uma rica fazendeira de café e canna.{112}

—Não leva com ella algum parente?

—Não, senhor. Leva duas criadas, e aquelles dous meninos. Coitada! como não irá aquelle coração! Não ha ainda oito mezes que ella aqui passou tão contente com o marido, que era doudo por ella! Mal diriam elles! A vida é um engano! Quando penso nos trabalhos, que se procuram, para amparar dous dias de vida, dá-me vontade de viver em descanso com meus filhos, comendo um bocado de pão estreme, e ensinando-os a despresarem a enganadora ambição de riquezas, que por fim... alli tem o exemplo!... Quanto daria aquella senhora por ter seu marido vivo! Dava de boamente os trezentos contos que tem...

—Trezentos contos! parece-me muito conto!

—Admira-se? pois tomára eu o que ella tem d'ahi para cima...

As reflexões melancolicas do capitão, ácerca da rapidez da vida, não impressionaram Luiz da Cunha: mas o fecho da lamuria philosophica, os trezentos contos, foi um valente encontrão á sua insensibilidade. Se n'aquelle momento fosse possivel abrir-lhe o craneo, e analysar-lhe o cerebro, ver-se-ia um arfar vertiginoso nas bossas predominantes d'aquella maquina! O capitão, sem o pensar, jogára um ariete á alma petrificada do passageiro, e abrira larga brecha por onde iam sahir planos de infame calculo.

A viuva retirára, quasi nos braços das criadas, á sala de ré. Luiz da Cunha desceu tambem, dominado por um pensamento que não supportava delongas. Tão radiosa lhe fulgira a esperança de angariar uma fortuna colossal, e tão susceptivel de realisar-se lhe parecêra um casamento com a fazendeira de café, que, desde esse momento, o experimentado aventureiro julgou-se protegido pelo diabo côxo de Le-Sage, e prometteu não perder occasião de captar a benevolencia da viuva.

Como ella tivesse recolhido ao seu beliche, para esconder dos indifferentes as incessantes lagrimas, Luiz meditou de vagar o seu plano, estudando o papel adaptado ao caracter da viuva, e afivelando-se uma mascara, visto que todas se ajustavam á perversa flexibilidade da sua physionomia moral.{113}

Convindo na conveniencia de representar mui sériamente, arrependeu-se das imprudentes facecias com que respondêra ás graves perguntas do capitão. Entendeu, porém, que a maneira de desvanecer o prejudicial conceito, que merecêra ao maritimo, era explicar a sua sarcastica jovialidade como um pretexto para illudir-se d'um profundo dissabor, uma d'essas pungentes ironias com que o desgraçado imagina vingar-se do verdugo destino, que o persegue.

Entrou em scena, e desempenhou magistralmente. O capitão, sincero e rustico, mais conhecedor dos escolhos do mar que dos outros, que se topam nas tempestades da vida, condoeu-se da pathetica narração inventada pelo passageiro, alludindo á perda de um coração, que lhe fôra caro, á ingratidão d'uma aleivosa mulher, que injuriára com a perfidia a sua generosa alma. Por causa d'ella—dizia o comico—abandonava o caro berço natal, o ceo dos seus amores de moço, cheio de illusões, mortas, calcadas, perdidas para sempre! E tão grande fôra essa dôr, tal desespero involvêra de negro a sua alma—proseguia elle, enrugando a fronte, e correndo por ella a mão com a mais velhaca naturalidade—que protestara affrontar com o escarneo todos os sentimentos nobres, pois que os seus tambem o tinham sido por uma traiçoeira mulher, colligada com miseraveis inimigos.