—E o senhor não leva saudades de ninguem?

—Não, senhor. Não levo, nem deixo. Não tenho patria, nem familia. Não sei se fóra dos lagos da Allemanha tambem ha ondinas. Se n'este mar me namorasse de uma, casava com ella, e viveriamos na mesma concha.

—Bem se vê que não deixa em Portugal ninguem que lhe seja caro. A quatro milhas da patria, nunca tive passageiro nenhum, que risse de tão boa vontade!

—Pois alguma vez havia de encontrar o impio contra a religião do amor-patrio. Não sei o que é isso, e dou-me os parabens de o não saber. Aquella mulher por que chora? são saudades?

—Saudades, sim, do marido, que deixa na sepultura.

—É o unico lugar seguro onde podia deixal-o. Se fôr ciumosa, póde ir e tornar, na certeza de que o não surprenderá n'uma infidelidade...

—Não zombe de cousas tão sérias, senhor Cunha. Cá no mar respeita-se a religião...

—E em terra, estes piedosos marinheiros convertem-na em libações de canada!... Vejo que é um bom catholico, senhor capitão!

—E o senhor não é catholico?

—Eu não sei o que sou, melhor do que o senhor. Sou este homem que vê. Tanto sou em terra como no mar. Não me canso a pensar em cousas superiores ao meu bom-senso, e vivo á discrição da fatalidade como este navio á mercê das ondas... Então aquella senhora viuva é brazileira?