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[XII.]
[FASCINAÇÃO DO ABYSMO.]
Raro será o peito de homem onde não bata apressado o coração, que deixa, na patria, uma infancia com recordações suaves, ou uma adolescencia alternada por prazeres e amarguras.
Deve ser-lhe tristissimo o ultimo adeus dos olhos ao ceo do seu berço! Bem digno de compaixão será aquelle que lhe vira as costas, com as faces enxutas! Esse irá mais duro da alma que o homicida, fugindo do lugar do delicto! Esse amaldiçoou-se a si, primeiro que a patria o amaldiçoasse; e, espedaçando os vinculos, que o ligavam aos deveres de homem, não sabe o que é familia, não sabe o que é sociedade, sente, com tedio de si proprio, que não tem patria nenhuma!
Tal era o filho de Ricarda.
Em quanto o marinheiro, com o barrete na mão, e os olhos turvos de lagrimas, dizia um mudo adeus ás montanhas de Portugal, e orava, com a santa poesia da fé, a supplica de feliz viagem ao Senhor, que faz bramir a tempestade, Luiz da Cunha observava com risonha curiosidade as varias physionomias dos seus companheiros. De tantas nem uma só deparou sem signaes de mágoa. Parece que todos levavam da terra uma recordação saudosa! O proprio capitão, de braços cruzados, á pôpa da galera, absorvido nos longinquos cimos das montanhas{111} cinzentas, não se differençava, no ar melancolico, do tenro moço, arrancado pela ambição aos braços da mãe, que o deixou ir sem resistencia, dando-se como certa a prosperidade em que tornaria a vêl-o.
Quem mais dava nos olhos, pelo chorar ancioso, era uma senhora vestida em rigoroso luto, com véo preto descido, e com dous meninos, um de dous annos, outro de peito ainda, sentados no collo d'uma preta, criada sua.
—Aquella dama chora por ella e por mim!—disse, com zombeteiro sorriso, Luiz da Cunha ao capitão.