—Não tenho espaço para elle. Onde está o demonio não póde entrar um anjo.

—Mas Deus póde mais que Satanaz—replicou Marianna.

—Isso é verdade!—confirmaram tres brazileiros.{116}

—Pois Deus realise a sua generosa vontade, minha senhora.

Luiz da Cunha, com esta resposta, lançou a sonda ao coração da viuva. O que ella lá encontrou, não o sei eu; mas que Marianna fez um gesto de resentimento, isso foi um facto, que não escapava á fina observação de Luiz da Cunha, nem á do leitor ou leitora, que são pessoas das muito raras, que eu conheço, com vista dupla para lêr um coração na ruga repentina da testa, ou no ligeiro morder do labio.

Seria indiscreta a versão feita por Luiz do repentino baixar d'olhos da viuva? Não era, não. O desejo que ella affectava de o vêr feliz pelo encontro d'uma linda e innocente menina, não era realmente o seu desejo, se a menina linda e innocente não era ella.

Como essa pobre mulher, durante um mez de viagem, chorou todas as lagrimas, que tinha perpetuado á memoria de seu marido, isso explica-se pela inactividade das glandulas lacrimaes, quando a acção vital se concentra no coração. A sua desesperada angustia, nos primeiros mezes de viuva, não podia durar muito. Dôr, que se expande em soluços, que rejeita consolações impotentes, e não espera nada dos recursos ordinarios, mata depressa, ou depressa se desvanece. Ora, a dôr d'uma viuva de vinte e cinco annos está, mais que nenhuma outra, sujeita áquelle aphorismo, que não li em Hippocrates, mas nem por isso devem deixar de o aceitar como regra de physiologia experimental.

E, depois, quando o aphorismo não frizasse com o facto, dou-vos uma razão mais forte, mais experimentada, e menos especulativa que as theorias incertas ácerca do coração.

Fôra necessario que Marianna tivesse sempre a seu lado um anjo a segredar-lhe os precedentes de Luiz da Cunha, para que ella se não deixasse illaquear na rêde habilmente lançada á sua fraqueza. O aspecto grave, austero, e melancolico do cavalheiro, que não faltava á menor cortezia d'uma refinada polidez; a veneração com que todos os companheiros de viagem respeitavam a sua tristeza sombria; a bondade que o seu sorriso respirava quando Antoninho, fugindo do collo da mãe, voava com{117} um beijo aos braços d'elle; a sensatez das suas reflexões a respeito do justo pranto da viuva, que perdeu um bom marido, tão raro entre os pervertidos filhos do seculo; os seus momentaneos extasis, quando a palavra amor lhe roçava fugitivamente os labios; e, finalmente, a certeza, dada pelo capitão, do illustre nascimento de Luiz, visto que na sua carteira levava uma ordem de seis contos de reis, que lhe fôra entregue por um padre, especie de mordomo ou cousa que o valha do mysterioso passageiro: todas estas contingencias reunidas, e outras muitas que nem a propria viuva saberia explical-as, davam a Luiz da Cunha um ar de grandeza, de distincção, de sympathia, que, em poucos dias, causára em Marianna vergonha da sua propria fraqueza, e até pesar de ter encontrado tal homem.

De mais a mais, os olhos de Luiz, tão expressivos e ardentes nas suas queixas contra o destino, baixavam-se submissos, se encontravam os olhos d'ella, em que a curiosidade não era menos significativa que a ternura. E porque se baixavam esses olhos? Mal vai ao coração da mulher quando esta curiosa pergunta a incommoda! De dia para dia redobra-lhe o desejo de entender esses olhos equivocos, essa modestia encantadora. Se elles se esquivam em confessar-se, ou se a palavra timida os não denuncia, o que era desejo, na mulher já ferida, torna-se em ancia de resolver o problema. Chega a assustar-se d'essa apparente submissão, d'essa mudez desamoravel. Quem sabe se aquelle olhar, fugindo aos olhos d'ella, quer dizer que o coração foge tambem? E então entra na empreza o mais forte inimigo da mulher: o amor-proprio, esse conselheiro intimo, que a salva raras vezes da queda, e, demonio de soberba, impelle-a quasi sempre á perdição, vendando-lhe os olhos do juizo, e dando-lhe aos do amor a vista dupla, o vêr penetrante, que, em linguagem do tempo, se chama a razão livre, a sanctificação do instincto. Era o amor-proprio o que fizera na face de Marianna um signal de resentimento. Ainda que Luiz da Cunha representasse o papel de atraiçoado amante, extenuado para novas paixões, a viuva, como todas as mulheres nas circumstancias d'ella, formosa e rica, tivera uma vez e outra a vangloriosa ideia de resuscitar aquelle homem,{118} que se julgava morto. Que nos perdôem as feiticeiras florinhas com que o Senhor matisou as agruras da existencia; mas uma fragilidade muito sensivel, e que muitas vezes as prejudica na sua isempção, é o orgulho de acorrentar a fera, que faz estragos desenfreada, ou insuflar uma existencia nova no homem, que adquiriu nota de cansado. Arriscada empreza todos os dias commettida com mau successo! A inexoravel serpente do éden está sempre assobiando aos ouvidos da eterna Eva. A vaidade, creação contemporanea da primeira mulher, continua a offerecer-lhe em taça de ouro o sumo do pomo, doce na superficie, e fel no fundo. A que intenta prostrar a seus pés o conquistador soberbo, para que a fascinação do seu engodo seja inveja ás que não poderam tanto, é sempre victima, se o homem, que facilmente se dá aos ferros, não tem ainda passado a linha da vida, além da qual está o completo cansaço do corpo e da alma, tristes socios de um tardio desengano. A que intenta restaurar no coração do homem as potencias, atrophiadas pela perfidia, não sabe que será ella a offerenda expiatoria do crime de outra mulher; não sabe que o trahido recupera as forças, convertendo-as em vingança, porque tudo que n'essa alma existia nobre e santo, bem póde ser que não sobrevivesse á morte d'um primeiro amor galardoado com o desprêso.