Leitora, não se enfade v. ex.ª com o longo periodo que vem de lêr, se é que o leu. Não seja ingrata á lhanesa com que se lhe mostra o homem tal qual é, e com que se trazem do insondavel da sua alma á luz da analyse cousas que v. ex.ª não vê em si, e muito raras vezes descobre n'elle.
Se D. Marianna tivesse encontrado na abundante leitura de romances uma outra Marianna em face d'um outro Luiz da Cunha, parece-me que saberia resistir aos primeiros assaltos do amor, victoria que alcançou a habil hypocrisia, adestrada em doze annos de infamias. Não quero, porém, com isto dizer que D. Marianna succumbisse, como imbecil, ao prestigio do excentrico companheiro de viagem.
O que ella tinha de peor era não ser imbecil. Foi cousa que seu defuncto marido não apoiava a tendencia d'ella para o maravilhoso. A indole, acalorada pelos romances,{119} seu passatempo querido, manifestára-se de um modo assustador para um marido, não convencido da sua superioridade a todos os outros homens, perante sua mulher. O fallecido fazendeiro de café era um homem excellente; mas, a respeito de intelligencia, não fallemos n'isso. O verniz que tinha, pouco ou muito, era obra de Marianna, que sinceramente o presava, desde que elle entrára como feitor em casa de seu pae. Diga-se de passagem que este bom homem, aos trinta annos arrebatado por uma febre typhoide, era nosso patricio, nascêra nos Arcos de Val-de-Vez, d'ahi sahira aos doze annos, e ahi voltára rico para morrer nos braços de seus parentes, que tirou da miseria. Tantas virtudes, mantidas pelo trabalho, são sobeja honra á memoria do marido de D. Marianna. Não precisamos, mentindo, encarecer-lh'a com dotes que elle não tinha, e, por isso mesmo, não approvava em sua mulher.
Mostrára-lhe, talvez, uma intuição clara que as tendencias romanescas de sua mulher a precipitariam. Viu bem.
Não sei se Marianna tinha sonhado o typo de Luiz da Cunha, como se diz em verso; se o tinha sonhado, encontrou-o na realidade, o que é alguma cousa peor. Os traços do astucioso caracter moral não discordavam do physico. Para a sua physionomia triste e sympathica arranjára-se Luiz da Cunha uma alma tão ao natural, que deixára a perder de vista as imperfeições da natureza. A arte, em quanto a mim, póde mais que a sua rival.
Sem arte não encaminhava Luiz da Cunha as cousas a ponto de Marianna ir sentar-se, alta noite, a seu lado, na tolda, contando silenciosa as estrellas do ceo, entre as quaes dizia o impostor que procurava a fada do seu destino.
—Se a vir—dizia Marianna—peça-lhe que lhe diga o meu.
—O seu destino posso eu dizer-lh'o, senhora D. Marianna.
—Qual?... diga, diga.
—Ha de ser venturosa, venturosa sempre.