—Ah!... Tambem eu gosto de me sentir assim.

—O ciume é cousa que não existe na boa roda. Em Veneza, e em Paris não ha ciume.

—E amor?

—Um pouco, em quanto dura. A civilisação é a liberdade das pessoas e das cousas: bole com tudo, toca em todos os sentimentos, entra nos juizos da cabeça, e enraiza-se nas aspirações da alma.

—Não te entendo, Luiz...

—Entendes, que tens muita intelligencia. E queres que te diga? Nenhuma mulher de fina educação póde ser{135} feliz, como esposa, se não estiver possuida de certos sentimentos de tolerancia com as faltas do marido.

—Vou entendendo agora, e admiro a minha ignorancia de ha pouco... Ora diz, meu amigo, falla, que me encontras em hora de ouvir tudo... Mas olha, Luiz... Esta noite não te recorda aquella primeira noite, no mar, quando me dizias: é mentira approximarem-se os entes que o destino talhou para se unirem: quando se encontram já a desgraça os traz desfigurados; vêem-se e não se conhecem; fallam-se e não se comprehendem... Era uma noite assim formosa como esta... Se então nos não comprehendemos, Luiz, hoje comprehenderemo-nos melhor?...

—Eis-ahi um incidente bem romanesco, minha amiga! Vejo que em Veneza ha de necessariamente conversar-se em linguagem de romance!... A recordação das minhas palavras o mais que prova é que tens uma feliz memoria...

—Que tu não tens... bem se vê que as esqueceste... Creio que vens zombar comigo, Luiz.

—Não, Marianna; não venho zombar. Estou capitulando comtigo. Vamos combinar bases novas sobre que deve assentar a nossa felicidade. Todos os casamentos são felizes, quando entre marido e mulher se dá uma perfeita harmonia de vontades. Negas isto?