Na ante-vespera da sua sahida de Lisboa, Luiz da Cunha quiz saber o que era feito de Liberata.

Ao escurecer, porque não sahia de dia, foi á rua de S. Bento, e parou defronte da casa n.º 40. Viu as janellas occupadas por um rancho de senhoras, e deduziu que Liberata já não morava alli.

Accendeu um cigarro na vela do tendeiro, que morava defronte, e como por mera curiosidade perguntou quem morava defronte.

—É a familia d'um empregado.

—Aqui ha tres annos morava lá uma mulher...

—Era boa rolha! chamava-se Liberata.

—Justamente... Que é feito d'essa mulher?

—Eu lhe conto o que sei. Depois que aqui á minha{162} porta deram umas facadas n'um tal Luiz da Cunha que morava no Campo Grande, e que lhe comia a ella a mesada que certo figurão lhe dava, a mulher metteu-se com um jogador que a trazia nas pontinhas. Chegou a ter duas seges a bebeda![[1]] Vai, se não quando, a mulher adoece, e o tal jogador nunca mais ahi veio. Esteve de cama onze mezes, vendeu tudo quanto tinha, os trastes até fui eu que lh'os penhorei por cento e cincoenta mil reis que me devia do grão para os cavallos, azeite, arroz, &c. &c. &c.

[[1]] Respeitemos a fidelidade.

—E morreu?