—Nem mais febre—tornou o conego, apalpando-lhe as mãos com singular carinho—Ora venha, venha comnosco. Anda lá com ella adiante, Perpetua, que eu fecho a porta.
Perpetua assentou Assucena no seu esteirão; embrulhou-a em cobertores; e deu-lhe uma chavena de café com um golo de genebra, por conselho de seu irmão. Depois sentou-se a par com ella, que não cessava de tiritar, Bernabé veio, melhor forrado contra o frio, sentar-se ao pé d'ellas. As lagrimas de Assucena eram inesgotaveis. Perpetua queria consolar, mas não conhecia a dôr. O conego, fixando alguns minutos em silencio o semblante da pobre menina, fez a sua irmã um gesto significativo, tomou com paternal ternura as mãos abrazadas de Assucena, e perguntou-lhe:
—Minha filha, porque soffre? Abra o seu coração. Se lhe não podérmos ser uteis, poderemos ao menos conseguir que o seu soffrimento diminua respirando pelas palavras. Quem sabe se Deus nos approximou? Diga o que tem: falla com um padre, que é seu pae espiritual.{66}
[VII.]
[PERDIDO SEM REDEMPÇÃO]
Quando Luiz da Cunha era conduzido por dous soldados á administração do bairro, encontrou Liberata n'uma sege, e respondeu com um gesto de cabeça á rasgada cortezia que ella lhe fizera.
A sege de Liberata retrocedêra, e vinha a passo lento seguindo Luiz da Cunha. Quando os soldados pararam á porta da auctoridade, e Luiz, sem reparar na sege, desapparecêra no interior do páteo, Liberata acenou a um dos soldados, que se chegou á portinhola. Perguntou por que fôra prêso aquelle sujeito, e o soldado informou-a com a minuciosidade que podia. Pagou com um cruzado novo o pequeno serviço do informador, e pediu-lhe que subisse á sala da administração, e dissesse ao ouvido do prêso que uma pessoa, que elle encontrára, em uma sege, lhe mandava offerecer não só dinheiro, mas até a influencia dos seus amigos, se com isso era possivel a sua immediata soltura.
O soldado não conseguira fallar ao prêso; mas soubera de um official de diligencias, seu conhecido, que o tal sujeito só podia ser solto com fiança, e não estava presente ninguem que o afiançasse.
Liberata deu ordens promptas ao boleeiro, e a sege, a grande galope, correu algumas ruas, e parou á porta de um conselheiro, official-maior d'uma secretaria de estado. S. ex.ª não recolhêra ainda da secretaria. A protectora de Luiz da Cunha mandou tocar para o Terreiro do{67} Paço, e fez parar a sua sege a par da do conselheiro. Chamou um correio de ministro, que passeava debaixo das arcadas, e mandou-o entregar ao official-maior o seu porte-monnaie. O conselheiro veio rapidamente á portinhola. Trocou algumas palavras com Liberata, entrou na sua sege, e partiu para a administração do bairro.
Perguntou por Luiz da Cunha; disseram-lhe que fôra remettido ao juiz criminal. Foi ao juiz criminal, quando o prêso acabava de sahir para o Limoeiro. Declarou o amante de Liberata que vinha afiançal-o. O juiz aceitou respeitosamente a fiança, e prometteu mandal-o soltar o mais depressa que se lavrasse o auto. Sahia, porém, o conselheiro, quando uma carta de uma notabilidade do Supremo Tribunal recommendava ao juiz que não aceitasse fiança, paliando quanto podésse a soltura inconvenientissima de Luiz da Cunha, que ameaçava a existencia do visconde de Bacellar.