Liberata, com a certeza da soltura, dada pelo amante, foi á cadeia, procurou Luiz da Cunha que passeava ainda na sala do carcereiro, e contou-lhe rasgadamente os passos que déra. O preso agradeceu-lh'os com aviltante submissão, não sentindo a vergonha de ser unicamente protegido por tal mulher. Sem o recriminar, a amante do conselheiro perguntou-lhe, sorrindo, se melhorára de fortuna, despedindo-a do seu serviço. Luiz da Cunha teve a sinceridade de confessar que tinha saudades do tempo em que vivêra com ella. Liberata disse que tambem as tinha, e deu como prova não ter sido fiel a nenhum dos seus amantes, depois d'elle, porque não encontrára rapaz tão perfeito, nem tão despreoccupado das asneiras sociaes, como Luiz da Cunha.
Recordaram scenas da sua vida de dous annos, dando tempo a que viesse a ordem de soltura. Passaram duas horas, e, como ella não chegasse, Liberata impacientou-se, e sahiu, dizendo que, se entretanto a ordem viesse, e elle quizesse fazer-lhe uma visita, depois da meia noite, a procurasse na rua de S. Bento, n.º 46.
Luiz prometteu-lhe a suspirada visita, e apertou-lhe com estremecida meiguice a mão. Em quanto lhe dava a mão direita, Liberata lançava com a esquerda no chapéo de Luiz o porte-monnaie. Sahiu.{68}
Foi d'uma corrida a casa do conselheiro; obrigou-o a sahir, a vencer todos os obstaculos que redobraram desde que o proprio visconde peitára o juiz, e, taes elles eram, que só, no dia immediato á tarde, Luiz da Cunha foi solto, e o conselheiro veio allegar a Liberata trabalhosos serviços, que ella pagou com um beijo.
Imaginam que Luiz da Cunha, apenas livre, nem tempo tem de procurar uma sege, e corre á rua do Principe, onde o espera a atormentada Assucena?
Não foi assim. Sahiu placidamente da cadeia. Desceu á primeira estação de seges no Terreiro do Paço. Montou a que lhe pareceu mais bem servida de parelha. Foi jantar ao Matta, no caes do Sodré. Subiu pela rua do Alecrim. Tomou café no Marrare. Passou na rua de S. Bento para vêr a casa n.º 46; cortejou Liberata que, por dentro das janellas, lhe fitava um pequeno oculo de theatro. Foi ao Campo Grande saber como seu pae estava. Entristeceu-se um momento quando lhe disseram que passára peor, depois que um imprudente lhe dissera que seu filho batêra no visconde de Bacellar. Não apeou para lhe não irritar os padecimentos. Veio para o theatro de S. Carlos, e reparou que o encaravam de lado, voltando-lhe as costas, se elle os encarava de frente. Achou-se sósinho no salão, e sósinho no banco em que se sentára. Depois da meia noite, despediu o boleeiro defronte do palacio das côrtes, e seguiu a rua de S. Bento até á casa n.º 46.
Dos moveis que Luiz da Cunha deixára á sua amante, nem uma cadeira existia. A primeira sala, forrada de ricos tapetes, opulenta de luxo e mau gosto não invejava o apparato da garrida decoração das salas d'um brazileiro de torna-viagem, que vos deslumbra com o seu baazar de porcellanas, de relogios, de cães e patos de vidro, de conchas variegadas, de ricas encadernações em marroquim de livros nunca abertos, de globos de luzente cobre, de coxins amarellos e vermelhos.
A sala de Liberata tinha tudo isto em prodiga profusão. Um americano, antecessor do conselheiro, e successor do capitão de marinha ingleza, tinha sido o intelligente coordenador d'aquella miscellanea em que despendera contos de reis, pequena paga para os carinhos de sua{69} amante. Diziam que Liberata seria esposa d'esse americano, se o consul despoticamente o não mandasse prêso a bordo d'uma embarcação que o levou a seu pae, desfalcado em boa parte da sua fortuna.
O conselheiro, que substituira o americano, sustentava o luxo de Liberata com uma farta mesada, de que ella tirava para todos os seus caprichos, podendo montar sege, sua mais querida ambição.
Luiz da Cunha contemplava estupidamente aquella magnificencia, que não era nada comparando-a á sumptuosidade d'alcova, onde foi recebido, como era dever que o fosse, o unico homem que a fizera conter-se nos honestos limites d'uma fiel amante.