—É um flagello da humanidade... É um homem que tem dado brado com os seus escandalos. Não te recordas das historias que nos contava o padre Joaquim?
—O capellão de João da Cunha?
—Que é pae de Luiz da Cunha... Aqui tens o abutre em cujas garras cahiu a pobre pomba. Desgraçada menina! É preciso preparal-a para o desengano...
—Quem sabe o que Deus fará?
—Eu não sei o que Deus fará; mas sei o que os homens são capazes de fazer. Não abandonemos esta victima do erro. Desculpemol-a, que tem o seu perdão na innocencia com que nos contou a sua vida. Se esse homem a procurar, achal-a-ha em nossa casa. Se nunca mais a procurar, a nossa casa será o abrigo de Assucena.
A criada da neta do arcediago desceu ao segundo andar, dizendo que um portador trazia uma carta para a senhora D. Assucena. O conego mandou descer o portador, perguntou de quem vinha a carta; o criado respondeu que era do senhor Luiz da Cunha, e não tinha resposta. Redarguiu Bernabé, inquirindo a residencia do senhor Luiz da Cunha: o moço respondeu que não tinha ordem de a dizer.
As suspeitas do conego fortaleceram-se. Esta carta{74} era uma despedida na sua opinião. Reflectiu se devia entregar-lh'a, ou lêl-a. Perpetua animou-o a abril-a, visto que a intenção era evitar algum desgosto mortal á infeliz menina. O conego leu a carta; e ficou satisfeito da sua temeridade.
—Não se lhe mostra esta infame carta—disse elle.
—Era capaz de morrer a desgraçadinha!—accrescentou a irmã.—Mas que lhe dirás, se ella te pedir noticias d'esse mau homem?!
—Digo-lhe... eu sei cá o que hei de dizer-lhe!... Digo-lhe que se resigne... e pedirei a Deus que lhe dê coragem para o desengano... Veremos... Talvez a possa salvar, servindo-me das palavras d'elle, que a matariam, se ella as lêsse todas...