Oh! tanta cinza morta... o vento a leve!
Vou sendo agora em ti a sombra leve
D'alguem que dobra a curva duma estrada...

[HORA QUE PASSA]

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dôno e que o procura,
Mais pobre e despresada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguem faz dó!
Minh'alma triste, dolorida e escura,
Minh'alma sem amôr é cinza e pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!...
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre...
O instante que foge, vôa, e passa...
Fiosinho d'agua triste... a vida corre...

[DA MINHA JANELA]

Mar alto! Ondas quebradas e vencidas
Num soluçar aflito e murmurado...
Vôo de gaivotas, leve, imaculado,
Como neves nos píncaros nascidas!

Sol! Ave a tombar, azas já feridas,
Batendo ainda num arfar pausado...
Ó meu dôce poente torturado
Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas!

Meu verso de Samain cheio de graça,
'Inda não és clarão já és luar
Como um branco lilaz que se desfaça!