Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de desejo ou de emoção,
Enquanto as azas loiras da ilusão
Abrem dentro de mim ao sol nascente.

Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte,
Toda ela é riso e é frescura e graça!

Nela refresca a bôca um só instante...
Que importa?... Se o cançado viandante
Bebe em todas as fontes... quando passa?...

[O MEU ORGULHO]

Lembro-me o que fui dantes. Quem me déra
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Eu lembro-me que fui a primavera
Que em muros velhos fez nascer as rosas!

As minhas mãos outróra carinhosas
Pairavam como pombas... Quem soubéra
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!

São sempre os que eu recordo que me esquécem.
Mas digo para mim: «não me merécem...»
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobresinha:
Que tambem é orgulho ser sósinha,
E tambem é nobreza não ter nada!

[OS VERSOS QUE TE FIZ]

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha bôca tem p'ra te dizer!
São talhados em mármore de Páros
Cinzelados por mim p'ra te oferecer.