Eu tenho lido em mim, sei-me de cór,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipréste e caravela e dôr!
Fui tudo que no mundo ha de maior;
Fui cisne e lirio e águia e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou um cínico riso de Chamfort...
Fui a heráldica flôr de agrestes cardos,
Deram as minhas mãos arôma aos nardos...
Deu côr ao eloendro a minha bôca...
Ah! De Boabdil fui lágrima na Espanha!
E foi de lá que eu trouxe esta ancia estranha!
Mágua não sei de quê! Saudade louca!
[A NOITE DESCE...]
Como pálpebras rôxas que tombassem
Sobre uns olhos cançados, carinhosas,
A noite desce... Ah! dôces mãos piedosas
Que os meus olhos tristissimos fechassem!
Assim mãos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lirios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!
A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilaz,
A noite põe-me embriagada, louca!
E a noite vai descendo, muda e calma...
Meu dôce Amôr, tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha bôca!