— Não sei, não posso descrever — disse o outro, tamborilando na mesa. — Foi mais ou menos assim. Eramos seiscentos, marchávamos com essas malditas poleaxes de Auberon – as únicas armas que temos. Marchamos em dupla, lado a lado. Subimos por Holland Walk, entre as estacas altas que pareciam ir direto como flechas para a Pump Street. Estava perto do final da fila, e era uma longa fila. Quando o final dela ainda estava entre as altas estacas, a cabeça da fila já estava atravessando Holland Park Avenue. Então a cabeça mergulhou na rede de ruas estreitas do outro lado, enquanto eu e o resto da cauda chegamos na grande travessa. Quando também chegamos ao lado norte e surgiu uma pequena rua que apontava, de forma torta, para Pump Street, tudo parecia diferente. As ruas se torciam e se inclinavam tanto que a cabeça da nossa fila parecia completamente perdida: poderia muito bem estar na América do Norte. E todo esse tempo não vimos ninguém...


Mapa do campo de batalha.


Mapa do campo de batalha.

Buck, que estava preguiçosamente batendo a cinza do cigarro no cinzeiro, começou a espalhar as cinzas deliberadamente sobre a mesa, fazendo linhas cinzentas emplumadas, uma espécie de mapa.

— Mas, embora as pequenas ruas estivessem desertas (o que me dava nos nervos), enquanto nos aprofundávamos, algo começou a acontecer que eu não conseguia entender. Às vezes, com um longo caminho pela frente – como se fosse três voltas ou cantos à frente – de lá partia de repente uma espécie de ruído, barulhos e gritos confusos, e depois parava. Então aconteceu, algo que não posso descrever, uma espécie de tremor ou cambaleio que veio para a parte de baixo da fila, como se a fila fosse uma coisa viva, cuja cabeça tinha sido atingida, ou fosse um cabo elétrico. Nenhum de nós sabia por que estávamos nos movendo, mas nos movemos e empurramos. Então, nos recuperamos, e fomos pelas ruazinhas sujas, de cantos arredondados, e formas retorcidas. As pequenas ruas tortuosas começaram a me dar um sentimento que não posso explicar, como se fosse um sonho. Eu me senti como se as coisas tivessem perdido a razão, e nunca sairia do labirinto. Estranho ouvir-me falar assim, não é? As ruas eram bem conhecidas, todas no mapa. Mas o fato permanece. Eu não estava com medo de algo acontecer. Eu tinha medo de nada acontecer, de nada acontecer por toda a eternidade de Deus.

Ele esvaziou o copo e pediu mais uísque. Bebeu, e prosseguiu:

— E então algo aconteceu. Buck, é a verdade solene, que nada nunca aconteceu com você em toda a sua vida. Nada me aconteceu em toda minha vida.

— Nada aconteceu! — disse Buck, olhando. — O que você quer dizer?

— Nada jamais aconteceu — repetiu Barker, com uma obstinação mórbida. — Você não sabe o que algo acontecer significa. Senta-se em seu escritório esperando clientes, e os clientes vêm; anda na rua esperando os amigos, e os amigos te encontram; quer um drinque, e o obtém; sente-se inclinado a uma aposta, e a faz. Espera ganhar ou perder, e ganha ou perde. Mas coisas acontecendo... —, e ele estremeceu incontrolavelmente.

— Vá em frente — disse Buck, brevemente. — Continue.