Emquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razões disputavam no espirito da moça a decisão que ella devia tomar. Afinal interveiu o coração!

—Tenho pena delle!

E ás oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça, cujo espirito jovial sympathisava com as côres frescas e risonhas, escolheu um vestuario sombrio. Era uma faceirice melancolica. Aquella menina de 18 annos, que na vespera, muito espontaneamente se promettera á um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma victimado dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contrahido.

Essa convicção dominava Amelia ao entrar na sala, e ressumbrava não só nas fitas pretas de seu trajo, como na languida flexão da fronte, e no olhar cheio de magoas. Ella se julgava sinceramente coagida por uma força irresistivel, que a arrancava á um amor profundo e santo, como a flôr que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara.

Leopoldo comprehendeu a melancolia de Amelia, e adivinhou que essa mulher estava perdida para elle no mundo; mas que sua essencia divina lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a magoa da saudade, que precede a longa ausencia. Quando se tornariam a encontrar as duas metades dessa alma, separadas por uma contingencia da materia?

Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amelia, porem só lhe fallou de cousas indifferentes, ao contrario do que ella esperava. Si o moço a interrogasse á respeito do casamento, aproveitaria o momento para confessar-lhe; mas elle nem de leve tocou nesse ponto.

Na occasião de se despedirem a moça fez um esforço.

—Já sabe? perguntou com voz tremula e quasi imperceptivel.

—Adivinhei! disse o mancebo fitando nella os olhos tristes.

Amelia ficou um instante indecisa, em face delle, como si esperasse mais alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquelle olhar, em que diffundira sua alma.