—A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de atirar sobre elle.

Alvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras, armava a clavina, e apoiava a bocca na fronte do italiano.

—Ides morrer. Fazei a vossa oração.

Pery abaixou a faca; recuou um passo, e esperou.

O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasphemia horrivel e satanica; as palpitações violentas do coração batião de encontro ao pergaminho que tinha no seio, e lembravão-lhe o seu thesouro que ia talvez cahir nas mãos de Alvaro e dar-lhe a riqueza de que não podêra gozar.

Entretanto, na baixeza dessa alma havia ainda alguma altivez, o orgulho do crime; não supplicou, não disse uma palavra, sentindo o contacto frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto.

Alvaro olhou-o um instante, e abaixou a clavina:

—Tu és indigno de morrer á mão de um homem, e por uma arma de guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito á justiça de Deus.

Loredano abrio os olhos; seu rosto illuminou-se com um raio de esperança.

—Vais jurar que amanhã deixarás a casa de D. Antonio de Mariz, e nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva.