E desde então o Rei viveu com medo de que á filha acontecesse o mesmo que acontecera á esposa, e jurou por isso não lhe dizer jámais na vida um—não.

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Quando Edeltrudes começou a falar e a distinguir o que a rodeava, todos que via eram seus servos. O próprio pai fazia-se seu escravo.—Que a tua vontade seja feita—era o que respondiam a todos os seus caprichos. E ela cada vez os tinha de mais difícil realização!

As damas da côrte e as aias viviam num suplício, e o povo cá fóra afirmava que a Princesinha tinha nascido sem coração.

Por isso a mãi lhe quisera dar o seu, sem o ter conseguido.

Poderia haver nada mais triste do que uma menina sem coração?

Todos os dias, mal abria os olhos, punha-se ela no seu leito a imaginar que tortura haveria de aplicar á primeira pessoa que lhe aparecesse; e a sua imaginação, exercitada nessa terrivel espécie de jogo, encontrava sempre um meio original de exercer a maldade. Toda gente no palacio tinha alcunhas, até aos próprios velhinhos ela tratava por tu e ordenava cousas dificeis e dolorosas.

E o Rei?

O Rei continuava a deixar que ela fizesse o que entendesse, todo embebido no seu amor paterno e na saudade da Rainha de mãos côr de cêra e olhos côr de turqueza fluida...

E no entanto ele era um homem forte, autoritário, que fazia tremer o assoalho da casa ao peso dos seus passos, e ajoelhar os subditos ao som da sua voz, grossa como um trovão.