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Á proporção que se fazia mulher ia a Princesa compreendendo que a atmosfera que a envolvia era feita de indiferença e desamor. Só no pai encontrava sinceridade. Os outros não lhe queriam bem; porque ninguem pode ter afeição a quem seja, como era a Princesa, tão egoista e tão mau. Quem espalha maldições não pode colher simpatias, quem só produz o mal de quem poderá esperar o bem?

Bem compreendia a Princesa que a vida não era igual para todos, pois via ás vezes dos altos torreões do seu Castelo certas mulheres do povo beijarem na rua as crianças, enternecidamente. O beijo seria criado só para o uso da ralé?...

O próprio pai quando a abraçava apenas lhe roçava os lábios pela testa, receando talvez sufoca-la nas ondas argênteas das suas grandes barbas.

E a Princesa navegava assim na vida, como fóra da vida...

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Era já mulher feita e linda, quando uma tarde mandou selar o seu melhor cavalo e saiu a galopar pelas alamedas do parque.

A ninguem era permitido acompanha-la nos seus giros de loucura, como ela mesma costumava dizer ao pai. Havia na solidão alguma cousa que a atraía; buscava inconscientemente a verdade que os cortezãos não lhe sabiam dizer...

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Nessa linda tarde côr de violeta, tão distraída estava a Princesa que depois de ter saltado valados, pulado cêrcas, embarafustado por campos lavrados, meteu-se, já cançada, por uma longa estrada margeada de um lado por velhos muros de quintas e do outro por um riozinho sossegado.