Uma núvem côr de rosa flutuava num céu que era todo brandura; das moitas das ervinhas rasteiras subia um aroma de flores desconhecidas e da espessura dos pomares irrompeu um canto de ave antes nunca ouvido...
Seria o rouxinol?...
O cavalo da Princesa andava agora devagar, como se tivesse tambem ele entrado na harmonia plácida daquela hora divina. E Edeltrudes deixou que ele a levasse, sem mesmo saber para onde... E assim passou por duas lavadeiras que, de joelhos na areia, cantavam com alegria, batendo panos nas pedras. E a Princesa, que não cantava nunca, preguntou de si para si:
—Poder-se ha ser feliz sendo-se pobre?...
Como de propósito, uma das lavadeiras cantou mais alto:
"A f'licidade da gente
Está na boa consciência..."
Mas quem faz caso do que dizem as lavadeiras, quando nas margens dos rios cantam por cantar? Só os poetas, que procuram em todas as vozes da natureza o segredo da vida para o pôr nos seus versos. Já as lavadeiras tinham ficado para tras, quando a Princesa topou com um homem cultivando o campo. A enxada subia e descia, revolvendo a terra que cheirava bem. Já de um lado um pouco do terreno, afeiçoado pelo trabalhador, parecia mais bonito, pronto para receber a sementeira. E ela parou um instante a apreciar aquele movimento. Era a poesia do Trabalho que lhe entrava pela alma sem que ela mesma a compreendesse...
Eram os golpes daquela enxada que convertiam a terra em pão e em flores, o que quer dizer, que é das mãos dos homens rudes e humildes que depende a fartura da humanidade e a beleza do mundo!
Mas a Princesa não tinha espírito para agradecer áquelle lavrador o conforto e o gozo que ele lhe dava.
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