Assim foi indo, foi indo, até reconhecer num muro baixinho de tijolo uma das partes laterais do Asilo dos Cegos da cidade.
O casarão ficava lá ao fundo, branquejando entre árvores. Do alto do seu cavalo ela observou o jardim, de ruas largas, sem empecilhos, cobertas de areia fina. Sentiu-se logo curiosa de vêr como andariam por ali os cegos, ao mesmo tempo que lamentava que, para gente que não via, gastasse o Estado tanto dinheiro, dando-lhe tão vasta e linda propriedade. Para exercício dos cegos não bastaria um terreno sem flores, nem árvores, nem gramados?
Se fôsse humanitaria perceberia a Princesa que exatamente para cegos se devem cultivar as flores que teem aroma, as árvores que dão sombra, as relvas que transformam o chão áspero na maciez veludosa dos tapetes...
Olhava ainda a Princesa para dentro do parque do Asilo, quando viu aparecerem tres cegos ao fundo de uma comprida rua de Eucaliptos.
Andavam com tamanho desembaraço que se diria que tinham os olhos nos pés, pois na cara bem ela via que não!
Um tinha as pálpebras murchas, afundadas nas órbitas; o outro as pupilas cobertas por uma neblina branca ... e o terceiro, mais incerto no andar, tacteava o caminho com um bastãozinho de madeira vêrde.
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Dizia o mais velho, continuando a conversa que traziam de longe:
—É mesmo assim: a Princesa Edeltrudes tanto mal faz aos outros, que dentro de pouco tempo a sua vida se converterá num verdadeiro inferno. Neste mundo, já o disse alguem, só ha uma cousa que se não converte em sofrimento—é o bem que tivermos feito. Ora, se a Princesa só pratica o mal, é claro que morrerá tolhida de remorsos. Chego a ter pena... Coitadinha...
A Princesa tremeu de raiva, debruçada do seu cavalo, com o rosto transfigurado e o olhar em chamas.