No seu largo leito de prata e de marfim, entre cortinas de brocado e sedosas cambraias, Edeltrudes passou a noite a scismar...

Que suplício inventaria para castigar a insolencia dos tres cegos?

Pelo vitral da ogiva o luar entrava, despejando-se em tonalidades místicas.

Com os olhos pasmados na luz, ela distinguia as imagens reproduzidas na transparência do vidro...

A que avultava era uma esguia figura feminima, de tranças de ouro escorridas pelos ombros e finas mãos estendidas, no gesto de semear esmolas pelo chão. E a seus pés as moedas se convertiam em rosas, lindas rosas que resuscitavam ao luar numa vida misteriosa e divina...

Mas ao adormecer a Princesa tinha tomado a sua decisão...

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No dia seguinte os guardas do rei solicitaram do Asilo a presença dos tres cegos no Castelo Real. Os pobres homens tremeram de medo, compreendendo a razão daquela ordem, e só se deixaram levar por não poderem desobedecer...

Na ânsia de os vêr a Princesa mandara-os buscar num côche de altas rodas, para que não perdessem tempo em andar a pé, nem fugissem pelo caminho... Depois de subirem várias escadarias, e pisarem tapetes em corredores que parecia não terem fim, os guardas retiveram dois cegos em uma antecâmara e introduziram o mais velho deles no enorme salão das Trinta Colunas, onde todas as damas e cavalheiros da côrte se achavam já reunidos, ornamentados de joias e de plumas.

Ao fundo, sentada num trono de veludo e ouro, com os cabelos negros enastrados de pérolas, a túnica de rendas presa á cintura por uma cadeia de pedrarias, os pés mimosos dentro de sandálias afiveladas com rubins, as mãos, rutilando de anéis, Edeltrudes refulgia como um astro.