—Tinha escripto o nome antigo?
—Tinha, sim, senhor: «Confeitaria do imperio.»
Custodio enfiou um casaco de alpaca e voou á rua da Assembléa. Lá estava a taboleta, por signal que coberta com um pedaço de chita; alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua, quizeram rasgal-a; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais efficaz cobril-a. Levantada a cortina, Custodio leu: «Confeitaria do imperio.» Era o nome antigo, o proprio, o celebre, mas era a destruição agora; não podia conservar um dia a taboleta, ainda que fosse em becco escuro, quanto mais na rua do Cattete...
—O senhor vae despintar tudo isto, disse elle.
—Não entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despeza. Depois, pinto outra cousa.
—Mas que perde o senhor em substituir a ultima palavra por outra? A primeira póde ficar, e mesmo o d... Não leu o meu bilhete?
—Chegou tarde.
—E porque pintou, depois de tão graves acontecimentos?
—O senhor tinha pressa, e eu accordei ás cinco e meia para servil-o. Quando me deram as noticias, a taboleta estava prompta. Não me disse que queria pendural-a domingo? Tive de pôr muito seccante na tinta, e, além da tinta, gastei tempo e trabalho.
Custodio quiz repudiar a obra, mas o pintor ameaçou de pôr o numero da confeitaria e o nome do dono na taboleta, e expol-a assim, para que os revolucionarios lhe fossem quebrar as vidraças do Cattete. Não teve remedio se não capitular. Que esperasse; ia pensar na substituição; em todo caso, pedia algum abate no preço. Alcançou a promessa do abate e voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de titulo,—uma casa tão conhecida, desde annos e annos! Diabos levassem a revolução! Que nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o visinho Ayres e correu a ouvil-o.