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Agora todas as minhas obsessões se haviam dissipado, convertidas em ciume—ciume que eu ocultava á minha amante como uma vergonha, que fazia por ocultar a mim proprio, tentando substitui-lo pelos meus antigos desvairos. Mas sempre embalde.

Contudo nunca passavam três dias seguidos sem que Marta me pertencesse.

O horror fisico que o seu corpo já me suscitara tinha voltado de novo. Esse horror, porêm, e o ciume, mais me faziam deseja-la, mais alastravam em côres fulvas os meus espasmos.

Muitas vezes repeti a experiencia de correr a sua casa nas tardes em que ela não vinha. Mas sempre encontrava Ricardo. Marta não aparecia senão ao jantar... E eu, na minha incrivel timidez, nunca perguntava por ela—esquecia-me mesmo de o fazer, como se não fosse para isso só que viera procurar o meu amigo àquela hora...

Porêm, um dia o poeta admirou-se das minhas visitas intempestivas, do ar febril com que eu chegava e, desde então, nunca mais ousei repetir essas experiencias, aliás inuteis.

Decidi espiona-la.

Uma tarde tomei um coupé e, descidas as cortinas, mandei-o parar perto de sua casa... Esperei algum tempo. Por fim ela saiu. Ordenei ao cocheiro que a seguisse a distancia...

Marta tomou por uma rua transversal, dobrou á esquerda, enveredou por uma avenida paralela àquela em que habitava e onde as construções eram ainda raras. Dirigiu-se a um pequeno predio de asulejo verde. Entrou sem bater...

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