E eu:
—Resolveu-se tudo muito bem. O escultor...
Chegaramos defronte do prediozinho verde. Interrompi-me de subito...
Não! não era ilusão: em face de nós, no outro passeio, Marta sempre nos seus passos leves, indecisos mas rapidos, silenciosos—sem nos ver, sem reparar em redór de si, dirigia-se ao predio misterioso, batia á porta desta vez, entrava...
E, ao mesmo tempo, apertando-me o braço bruscamente, dizia-me o poeta:
—No fim de contas é um disparate irmos incomodar o russo. O que eu estou é ansioso por conhecer o teu drama. Vamos buscá-lo os dois a tua casa. Quero ouvi-lo esta tarde. Tanto mais que o automovel precisa concerto. Aquilo, dia sim, dia não, é uma peça que se parte...
* * * * * * * *
Vivi todo o resto desse dia como que envolto num denso véu de bruma. Emtanto pude ler o meu drama a Ricardo e a Marta. Sim, quando voltámos ao palacete, após termos passado por minha casa, já Marta regressara, e notei mesmo que já tinha mudado de vestido—embora contra o seu costume, não vestisse um traje de interior, mas sim uma toilette de passeio.
Lembro-me tambem de que durante toda a leitura da minha peça, só tive esta sensação lucida: que era bizarro como eu, no meu estado de espirito podia entretanto trabalhar.
De resto, conforme observei, as minhas dôres, as minhas angustias, as minhas obsessões eram intermitentes, tinham fluxos e refluxos: como nos dias de revolta social, entre os tiros de canhão e o tiroteio nas praças, a vida diaria prossegue—tambem, no meio da minha tortura, seguia a minha vida intelectual. Por isso mesmo lograra esconder de todos, até hoje, a atribulação do meu espirito.