Mas, juntamente com a ideia lucida que descrevi, sugerira-se-me durante a leitura outra ideia muito estrambotica. Fôra isto: pareceu-me vagamente que eu era o meu drama—a coisa artificial—e o meu drama a realidade.
Um parentese:
Quem me tiver seguido deve, pelo menos, reconhecer a minha imparcialidade, a minha inteira franqueza. Com efeito, nesta simples exposição da minha inocencia, não me poupo nunca a descrever as minhas ideias fixas, os meus aparentes desvairos que, interpretados com estreiteza, poderiam levar a concluir, não pela minha culpabilidade, mas pela minha embustice ou—criterio mais estreito—pela minha loucura. Sim, pela minha loucura; não receio escreve-lo. Que isto fique bem frisado, porquanto eu necessito de todo o credito para o final da minha exposição, tão misterioso e alucinador êle é.
Ricardo e Marta felicitaram-me muito pela minha obra—creio. Mas não o posso afirmar, em virtude do denso véu de bruma cinzenta que me envolvera, e que só me deixou nitidas as lembranças que já referi.
Jantei com os meus amigos. Despedi-me cedo pretextando um ligeiro incomodo.
Corri para minha casa. Deitei-me logo... Mas antes de adormecer, revendo a scena culminante do dia, observei esta estranha coisa:
Ao pararmos em face do predio verde, de subito eu vira Marta avançar distraída até bater á porta... Ora, segundo a direcção em que ela me aparecera, era fatal que tinha vindo sempre atrás de nós. Logo, ela devia-me ter visto; logo eu devia-a ter visto quando—lembrava-me muito bem—olhara para trás, por sinal em frente dum grande predio em construção...
E ao mesmo tempo—ignoro porque motivo—lembrei-me de que o meu amigo, quando decidira de repente não ir a casa de Warginsky, terminara a sua frase com estas palavras:
—... o automovel precisa concerto. Aquilo, dia sim, dia não, é uma peça que se parte...
E eram as unicas palavras de que me lembrava frisantemente—mesmo as unicas que eu estava certo de lhe ter ouvido. Entretanto as unicas que eu não podia admitir que êle tivesse pronunciado...