Demorei-me ainda largas horas a rever o meu estranho dia. Mas por fim adormeci, levando num sono até alta manhã...

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Dois dias depois, sem prevenir ninguem, sem escrever uma palavra a Ricardo, eu tive finalmente a coragem de partir...

Ah! a sensação de alivio que experimentei ao descer emfim na gare do Quai d'Orsay: respirava, desennastrara-se-me a alma!...

Com efeito eu sofri sempre as dôres morais na minha alma, fisicamente. E a impressão horrivel que ha muito me debelava, era esta: que a minha alma se havia dobrado, contorcido, confundido...

Mas agora, ao ver-me longe de tudo quanto me misturara, essa dor estranha diluira-se: o meu espirito, sentia-o destrinçado como outróra.

Durante a viagem, pelo contrario, numa ansia de chegar a Paris, as minhas torturas tinham-se enrubescido. Eu pensava que nunca chegaria a Paris, que era impossivel haver triunfado, que sonhava com certeza—ou então que me prenderiam no caminho por engano; que me obrigariam a tornar a Lisboa, que vinham no meu encalço Marta, Ricardo, todos os meus amigos, todos os meus conhecidos...

E um calafrio de horror me zig-zagueara ao ver entrar em Biarritz um homem alto e loiro, no qual, de subito, eu julguei reconhecer Sergio Warginsky. Mas olhando-o melhor—olhando-o pela primeira vez realmente—sorri para mim proprio: o desconhecido apenas tinha do conde russo o ser alto e loiro...

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Emtanto agora já não podia duvidar; vencera. Atravessava a Praça da Concordia, monumental e aristocratica, tilintante de luzes...