De novo, ungindo-me de Europa, alastrando-me da sua vibração, se encapelava dentro de mim Paris—o meu Paris, o Paris dos meus vinte e tres ânos...

E foram então os ultimos seis meses da minha vida...

Vivi-os de existencia diaria, em banalidade, frequentando os cafés, os teatros, os grandes restaurantes...

Nas primeiras semanas—e mesmo depois, numa ou noutra hora—ainda pensei no meu caso, mas nunca embrenhadamente.

Afinal—pressentia—tudo aquilo, no fundo, era talvez bem mais simples do que se me afigurava. O misterio de Marta? Ora ... ora... Fazem-se tantas loucuras ... ha tantas aventureiras...

E parecia-me até que, se eu quisesse, num grande esforço, numa grande concentração, poderia explicar a mim proprio tudo quanto me obcecara. Mas conclui que valia bem melhor não explicar coisa alguma, esquecer tudo. Esquecer é não ter sido. Se eu lograsse abolir o triste episodio da minha recordação, era exactamente como se nunca o existira. E foi pelo que me esforcei.

Entretanto nunca podia deixar de pensar numa circunstancia: a complacencia inaudita de Ricardo—a sua infamia. Então as coisas haviam chegado a ponto da sua mulher ir atrás dêle, quasi com êle, a casa dum amante? Pois se nós a não viramos, ela, por mais distraída que caminhasse, tinha-nos visto com certeza. Mas nem por isso retrocedera!

E um turbilhão de pequeninas coisas me ocorria juntamente, mil factos sem importancia ao primeiro exame, mil pormenores insignificantes em que eu só agora atentava.

Ha muito que o meu amigo descobrira tudo decerto; por força que ha muito soubera das nossas relações... Nem podia deixar de ser assim. Só se fosse cego... Era pasmoso!...

E êle que me queria sempre ao lado da sua companheira? Mudara de lugar á mesa, pretextando uma corrente de ar que nunca existira, só para que eu me sentasse junto de Marta e as nossas pernas se podessem entrelaçar...