Se saíamos os três, eu ia ao lado dela... E nos nossos passeios de automovel, Ricardo tomando sempre o volante, sentavamo-nos os dois sozinhos no interior da carruagem ... bem chegados um ao outro ... de mãos dadas. Sim; pois logo os nossos dedos se nos ennastravam—maquinalmente, instintivamente... Ah! e era impossivel que êle o não observasse quando, muita vez, se voltava para nos dizer qualquer coisa...
Mas—facto estranho—a verdade é que, nesses momentos, eu nunca receara que êle visse as nossas mãos; nunca me perturbara, nem sequer esboçara nunca um gesto de as desenlear... Era como se as nossas mãos fossem soltas, e nós sentados muito longe um do outro...
E dar-se-hia o mesmo com Sergio? Oh, sem duvida... Ricardo estimava-o tanto...
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O mais infame, o mais inacreditavel porêm, era que sabendo êle, a sua amizade, as suas atenções, por mim e pelo russo aumentassem cada dia...
Que êle soubesse e emtanto se calasse, por muito amar a sua companheira e, acima de tudo, não a querer perder—ainda se admitia. Mas então, ao menos, que mostrasse uma atitude nobre—que nos não adulasse, que não nos acariciasse...
Ah! como tudo isto me revoltava! Não propriamente pela sua atitude; antes pela sua falta de orgulho. Eu não soube nunca desculpar uma falta de orgulho. E sentia que toda a minha amizade, a minha sincera amizade por Ricardo de Loureiro, sossobrara hoje em face da sua baixeza. A sua baixeza! Êle que tanto me gritara ser o orgulho a unica qualidade cuja ausencia não perdoava em um caracter...
Mas devo esclarecer: ao pensar no extraordinario procedimento do meu amigo, nunca me confrangiam as reminiscencias das minhas antigas obsessões. Esquecera-as por completo. Mesmo que as recordasse, importancia alguma já daria ao misterio—seguramente misterio de pacotilha—ao meu ciume, a tudo mais...
Apenas ás vezes, quando muito, me assaltava uma saudade vaga, esvaída em melancolia, por tudo o que outróra me torturara.
Somos sempre assim: o tempo vai passando, e tudo se nos volve saudoso—sofrimentos, dores até, desilusões...