Com efeito, ainda hoje, ás tardes maceradas, eu não sei evitar numa reminiscencia longinqua, a saudade violeta de certa criaturinha indecisa que nunca tive, e mal roçou pela minha vida. Por isto só: porque ela me beijou os dedos; e um dia, a sorrir, defronte dos nossos amigos, me colocou em segredo o braço nu, mordorado, sobre a mão...

E depois logo fugiu da minha vida, esguiamente, embora eu, por piedade—doido que fui!—ainda a quisesse dourar de mim, num enternecimento asul pelas suas caricias...

E sofri ... ela era tão pouca coisa, mas a verdade é que sofri ... sofri de ternura. Nunca lhe tive amor. Apenas ternura ... uma ternura muito suave ... penetrante ... aquatica...

Os meus afectos, mesmo, foram sempre ternuras...

Porêm quando me acordava essa saudade branda do meu antigo sofrimento—isto é: do corpo nu de Marta—no mesmo instante ela se me diluía, ao lembrar-me da atitude infame de Ricardo.

E a minha revolta era cada vez maior.

Por felicidade, até aí, ainda não recebera uma carta do artista. Que nem a teria aberto, se a recebera...

Pessoa alguma conhecia o meu endereço. Saber-se-hia talvez que eu estava em Paris, devido a encontros fortuitos com vagos conhecidos.

Não comprava jornais portugueses. Se vinha no Matin qualquer telegrama de Lisboa, não o lia; e assim, em verdade quasi triunfara esquecer-me de quem era... Entre a multidão cosmopolita, criava-me alguem sem patria, sem amarras, sem raizes em todo o mundo.

—Ah! que venturoso eu fora se não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse...—lembrei-me muita vez estranhamente, nos meus passeios solitarios pelos boulevards, pelas avenidas, pelas grandes praças...