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Uma tarde, como de costume, folheava as ultimas novidades literarias nas galerias do Odéon, quando deparei com um volume de capa amarela, recem-aparecido, segundo a classica tira vermelha... E diante dos meus olhos, em letras de brasa, o nome de Ricardo de Loureiro fulgurou...
Era com efeito a tradução francesa do Diadema que um editor arrojado acabara de lançar, revelando ao mundo uma literatura nova...
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Nessa tarde, pela primeira vez desde que cheguei a Paris, tive algumas horas realmente alucinadas.
Durante elas embrenhei-me a pensar em Ricardo, no seu procedimento inqualificavel, na sua inadmissivel falta de orgulho.
Meditei em todos os pequenos episodios que atrás referi, descortinei outros ainda mais significativos, perdendo-me a querer descobrir todos os amantes possiveis de Marta... E numa alucinação, não podia conceber que nenhum dos homens que eu vira um dia junto dela, não tivesse passado pelo seu corpo—e sabendo-o o marido: Luís de Monforte, Narciso do Amaral, Raul Vilar ... todos, emfim, todos...
Entretanto, no meio disto, ainda havia qualquer coisa mais bizarra: era que nesta revolta, neste asco, neste odio—sim; neste odio!—por Ricardo, misturava-se como que um vago despeito, um ciume, um verdadeiro ciume dêle proprio. Invejava-o! Invejava-o por ela me haver pertencido ... a mim, ao conde russo, a todos mais!...
E esta sensação descera-me tão forte, essa tarde, que num relampago me voou pelo cerebro a ideia rubra de o assassinar—para satisfazer a minha inveja, o meu ciume: para me vingar dêle!...
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