Mas voltei por fim á minha calma, e, perante o meu antigo amigo, só me restou o meu nojo, o meu tedio, e um desejo ardente de lhe escarrar na cara toda a sua indignidade, toda a sua baixeza, clamando-lhe:

—Olha que fomos amantes dela ... eu e todos nós, ouves? E todos sabemos que tu já o sabes!...

Á noite, antes de adormecer, veiu-me ainda esta ideia perturbadora, num atordoamento luminoso:

—A sua baixeza ... a sua falta de orgulho... Ah! mas se eu me engano ... se eu me engano ... se é Marta quem lhe conta tudo ... se êle conhece tudo só porque ela lho diz ... se ela tem segredos para todos, menos para êle ... como eu queria... como eu a queria para mim... Nesse caso ... nesse caso...

E ao mesmo tempo—arripiadamente, desarazoadamente—acudiu-me á lembrança a estranha confissão que Ricardo me fizera uma noite, ha tantos ânos ... no fim dum jantar ... para o Bosque de Bolonha ... no Pavilhão ... no Pavilhão d'Armenonville...

[VII]

Outubro de novecentos principiara.

Uma tarde, no boulevard des Capucines, alguem de subito me gritou, batendo-me no ombro:

—Ora até que emfim! Andava exactamente á sua procura...

Era Santa-Cruz de Vilalva, o grande empresario.