Desde que chegara a Paris, não escrevera uma linha—nem sequer já me lembrava de que era um escritor... E agora, de subito, vinham-me recorda-lo—evidenceando o apreço em que se tinha o meu nome; e precisamente alguem que eu sabia tão pouco lisonjeiro, tão brusco, tão homem-de-negocios...
Á noite, como se combinara, li o meu drama. Santa-Cruz de Vilalva exultou: «Trinta seguras!» punha as mãos no fôgo; «a minha melhor obra»—garantiu.
Entreguei-lhe o manuscrito, mas com estas condições:
Que não iria assistir aos ensaios nem me ocuparia da distribuição, de pormenores alguns da mise-en-scène. Da mais ligeira coisa, emfim. Deixava tudo ao seu cuidado. Ah! e principalmente que não me escrevesse nem uma palavra sobre o assunto...
O grande empresario anuiu a tudo. Falámos ainda alguns instantes.
E ao despedirmo-nos:
—É verdade—disse—sabe quem me perguntou varias vezes por si? se eu sabia de você ... o seu endereço?... O Ricardo de Loureiro... Que o meu amigo nunca mais lhe tinha escrito... Tambem represento um acto dêle ... em verso... Boa noite...
Esquecera já o meu encontro com o empresario, a minha peça, tudo—emfim tornara a mergulhar no meu antigo alheamento, quando de subito me ocorreu uma ideia nova, inteiramente diversa da primeira, para o ultimo acto da Chama: uma ideia belissima, grande, que me entusiasmou.
Não descansei emquanto não escrevi a novo acto. E um dia não pude resistir; parti com êle para Lisboa.
Quando cheguei, tinham começado os ensaios pouco antes.