"Gosto, ás vezes, de rir, nas horas mortas…
E de sentir o riso humedecido
Das lagrimas das cousas que murmuram
Escuros, demoniacos segrêdos…
Doido que sou, meu riso é de alegria…
Vae através da noite, em alvorôço;
E logo acorda as Almas, e revela
Vultos, Perfis, Figuras perpassando
Em turbilhão, nos ares… borborinhos
De invisiveis espiritos sem nome…
Os ventos que o meu rir desencadeia!

"Foi á luz do meu riso lampejante
Que teu vulto nocturno conquistou
Este rumor e sombra que é Presença…"

E a Amazona da Noite: "Pois é certo
Que o riso doido grava no silencio
Imagens que têm alma e vida propria?"

"—É certo que, ao beijar-me a tua sombra,
Ela se fez em riso nos meus labios…

"És a fonte sinistra do meu riso…

"E o meu riso te veste de apparencias…"

"—São escuras palavras… não entendo.
Eu quero conhecer-te. Quem és tu?"

"—Mas eu não sei quem sou. Nunca me vi.
O nosso olhar, mal nasce, bate as asas,
E não regressa mais ao lar paterno…
Leva comsigo a imagem verdadeira
Das cousas, viva imagem transcendente,
Que a lagrima final, já d'além-mundo,
Reflecte em sua esféra de agonia.

"Ah, se, ao menos, pudesse ver a imagem,
Phantastica de bruma, que projecto
Nos teus olhos que as lagrimas abriram
Em marmoreas angustias, pétreas dôres?

"Teus olhos são esphingicos: devoram!