"Não sei quem sou, não sei… Mas que m'importa?

"Meu gôsto é rir, de noite, no silencio…"

E outra vez, o nocturno Viandante
Encheu de riso o espaço e o luar extatico:
A debil luz anémica embebendo-se
Em sol de primavera e de loucura.

"—Não me conheces, não. Se tu soubesses
A quem falas, o riso dos teus labios
Caíria gelado n'uma lagrima.

"Não me conheces, não. Tu nunca viste,
De perto, a minha Fouce," acrescentou
A Morte, n'uma voz de irrealidade
E de halucinação e de chimera
Que os Echos, nem de leve, repetiram.

"—Enganas-te. Conheço-te. De balde
Escondêste nas dobras do teu manto
O rôsto cadaverico e as falanges
Que seguram as redeas que dirigem
Teu Cavalo-Phantasma, irmão do Vento.

"Ignoras o relêvo e a nitidez
Espelhenta dos ossos ao luar…
E conheço-te mesmo pela Fouce
Que ceifa a seara humana e as outras searas…
É assim, com esse aspecto, que apareces,
Em publico, pintada nos paineis."

A Morte silenciosa desvendou
A descarnada e lúgubre Figura,
Emudecida e triste contemplando
Aquela vida humana que, a um seu gesto,
Subito, baixaria á eterna sombra.

E disse logo o Doido com espanto:

"Ah, sim, tu ris tambem… mas esse riso
É riso aberto em pedra… quem o ouve?…