E levo a uma irmã minha!
Este mesmo desenlace se encontra no romance de Branca-Flor:
Ai triste de mim coitada,
Ai triste de mim mofina,
Mandei buscar uma escrava,
Trazem-me uma irmã minha.
(Pag. 103, n.º 38.)
No romance catalão Las dos Germanas, publicado por M. Milà y Fontanals (Observationes sobre la Poesia popular, p. 117) a cativa dá-se a conhecer por uma cantiga de berço. Na Bella Infanta ha tambem um reconhecimento. No romance de Dom Bueso, recolhido por Amador de los Rios, o cavalleiro encontrou uma donzella que estava lavando em uma fonte fresca. Leva-a comsigo; já proximo de casa, ella recorda-se d’aquelles sitios, e é quando Dom Bueso reconhece sua irmã Rosalinda. Na poesia grega, onde o amor não é conhecido com a simplicidade ingenua dos povos modernos, a mulher é quasi sempre a que se apaixona de um modo irresistivel, a que se sente arder em um fogo ignoto; veja-se Sapho, Phedra, Pasiphae; o heroe não comprehende essa hallucinação. Na poesia hespanhola o cavalleiro é quasi sempre tambem incitado pelas graças das donzellas. A rudeza das armas fazia-lhe esquecer os devaneios ferventes. No romance da Encantada e da Infeitiçada, a donzella é que se dirige ao cavalleiro, e que ri da sua ingenuidade.
Uma ballada allemã intitulada a Filha do rei encontrada, que Du Puymaigre traduziu (Vieux auteurs Castillans, t. II, p. 365) versa sobre a mesma peripecia, mas illuminada pela melancholia vaga do norte: «Um rei tinha uma filha pequenina; chamava-se Annellein. Sentou-se ás abas de um bosque sobre uma pedra. Veio um vendilhão estrangeiro por ali; atirou-lhe uma fita de seda: «Agora é preciso que tu me sigas.» Levou-a para casa de uma mulher, que tinha uma estallagem, e deixou-a para servir. «Estallajadeira, minha estallajadeira, tomae para vos servir essa minha filhinha.»—Oh sim, sim, é o que eu quero; heide tratal-a bem, heide ser como uma mãe para ella. «Passado certo tempo, já se contavam annos, eis que passa um senhor a cavallo, indo em busca de uma mulher. Passou pela casa da estallajadeira; a rapariga lhe trouxe vinho. «Estallajadeira, minha cara estallajadeira, é vossa filha? ou é mulher de vosso filho? como é tão bella?—Não é minha filha, nem tão pouco mulher de meu filho: é a pobre Gudeli; ella ensina os quartos aos hospedes.—Estallajadeira, minha cara estallajadeira, deixai-me ficar uma noite ou tres, tantas quantas me fizer conta.—Oh sim, sim, isso é o que eu quero. Eu vos hospedarei tanto tempo quanto quizerdes.» O cavalleiro tomou a bella Annelein pela mão, e a conduziu, para o quarto de dormir; levou-a para uma bella cama e perguntou-lhe se quereria dormir junto d’elle. O Duque tirou a sua espada d’ouro e pol-a entre os dois corações. A espada não hade ferir nem cortar, mas Annelein hade ficar como uma virgem criança. «Ah Annelein, olha agora para mim. Conta-me a tua sorte, dize-me tudo o que sabes, tudo o que te lembra. Dize-me quem é a tua mãe?—O senhor rei é meu pae, a rainha é minha mãe; eu tenho um irmão que se chama Mannigfalt: Deos sabe por onde elle agora anda.—Já que teu pae é o rei, e tua mãe a rainha, e que tens um irmão chamado Mannigfalt, eu apérto a mão de minha irmã.» E quando rompeu a madrugada, a estallajadeira veio à porta do quarto: «Levanta-te, priguiçosa, levanta-te, vem dar de almoçar aos hospedes.»—Oh não, deixa dormir a bella Annelein; serve tu os viajantes; minha irmã Annelein já não é criada.» Monta-se a cavallo, e leva sua irmã á garupa; toma galhardamente sua irmã pela cintura e leva-a atrás de si. E quando chegou á corte, veiu sua mãe ao encontro: Bem vindo sejas, meu filho mais essa terna mulhersinha.—Não é uma mulhersinha, é vossa filha, que tinhamos perdida ha tanto tempo. «Sentaram á meza a bella Annelein, deram-lhe peixe frito e cosido; meteram-lhe no dedo um annel d’ouro: «Até que fôste encontrada, minha filha real.» (Volksliedei, S. 186) Uma outra ballada allemã, de uma orphan, que vae bater á porta de uma irmã casada, para a servir, tem sua analogia com a Branca-Flor (Deutsches Balladenbuch, S. 10). Esta mesma peripecia se encontra em cantos suecos, dinamarquezes, em um fragmento do poema bretão Les Breiz (M. de Villemarqué, Barzaz Breiz, t. I, p. 137-180), nos Cantos populares do Norte (Marmier, p. 175), nos Cantos populares da Grecia moderna (Conde de Marcellus, p. 146). O maravilhoso feérico das margens do Rheno tambem apparece n’estes romances da Infanta de França, e Encantada. M. Du Puymaigre indica a maior parte dos romances em que se encontram situações analogas de reconhecimento, cujas collisões formam ordinariamente os lances da poesia popular. (Vid. Vieux auteurs castillans, t. II, p. 357, 374).
12—Romance da Silvana—É dos mais populares e antigos; encontra-se em Lisboa, Ribatejo e Beira Alta. Já no seculo XVII D. Francisco Manuel de Mello o cita como velho, como se deprehende d’aquelle verso do Fidalgo apprendiz: Uma letra nova quero, que diz Brites, recusando-se a escutar este romance que Gil lhe ia cantar á guitarra. (Pag. 247). A Silvana faz lembrar a Myrrha da mythologia grega. Pertencerá ella ás ficções eruditas do cyclo greco-romano? Não parece o combate de Tristão com o Morouhet de Irlanda uma imitação o combate de Theseu com o Minotauro? Arthur não é trahido por Ginebra, como Hercules por Djanira? Têm ás vezes origens caprichosas estas tradições do povo. O principio da Sylvana anda quasi sempre confundido com o romance do Conde Alarcos. Foi pela primeira vez publicado por Almeida Garrett, que o dá como originario portuguez. (Rom. t. II, p. 98). Encontra-se porem nas Asturias, e o sr. Amador de los Rios o publicou no Jahrbach für romanische und englische Literatur, t. III, p. 284, com o titulo de Delgadina: «O rei tinha tres filhas, cada qual como uma flor, e a mais nova d’ellas todas chamava-se Delgadina. Estando um dia á meza, estando um dia a comer, seu pae que a estava a mirar, seu pae que tanto a mirava.—Porque é que me olhaes, meu pae? Porque é que me estaes a olhar?—Ólho, filha, porque quero sejas minha namorada.—Isso é o que Deos não quer, nem a Virgem soberana. Deos do céo não quer que eu seja tua namorada. O pae quando isto ouviu a levou para uma torre; não lhe dava para comer, mais que sardinhas salgadas; não lhe dava de beber mais que summo de laranja. Delgadina, morta á sêde, foi pôr-se a uma janella, e vendo os irmãos que estavam a par dos grandes de Hespanha: Oh meus irmãos, meu irmãos, se me daes um pingo de agua, que o meu coração se quebra, e a minha alma se parte.—Não t’a darei, Delgadina, pois se o soubesse meu pae a vida me tiraria com a ponta da sua espada. Delgadina morta á sêde, foi pôr-se a outra janella, viu suas irmãs estarem bordando tea de Hollanda: Oh manas, manas queridas, mandae dar-me uma pouca de agua.—Não t’a darei Delgadina, Delgadina não darei, porque perderia a vida se é que meu pae o soubesse. Delgadina morta á sêde, foi pôr-se a outra janella, e vendo seu pae já prestes a partir para a caçada: Meu pae, vós que sois meu pae, dae-me vós uma gota de agua?—Eu te darei Delgadina, se tu commigo falares.—Ouvirei as vossas falas, bem contra minha vontade. Os criados que elle tinha, todos foram buscar agua, uns a trazem em jarros de ouro, outros n’um gomil de prata. Ao primeiro que chegou, mandou sua corôa dar, ao que chegou derradeiro, manda a cabeça cortar. O leito de Delgadina estava de anjos cercado, e a cama de seu pae toda cheia de diabos.»