13—Romance de Bernal Francez—Anda na tradição oral da Beira Baixa e Estremadura, e já Garrett o tinha encontrado nos manuscriptos do cavalleiro de Oliveira, por onde aperfeiçoou a lição mais circumstanciada e extensa que vem no Romanceiro, t. II, pag. 129. A versão da Foz é egualmente dramatica, e superior por se ter respeitado n’ella a sua rudeza nativa. Tenho para mim que o romance é formado de duas partes distinctas que a tradição confundiu, e que o povo não sabe discriminar; o pensamento da primeira parte, isto é a difficuldade que sente a esposa diante de seu marido, encontra-se no Romancero General (Duran, n.º 298) na Adultera castigada; a segunda, parece formar-se do romance El Palmero (Duran, n.º 292) em que o cavalleiro vem ver se vê a sua amada e lhe dizem que é morta por amor d’elle.

Circumstancias do dialogo, desfecho, e o caracter principal da acção, revelam-nos manifestamente a fusão dos dois romances, que pelo andar do tempo e pela desmemoria do vulgo se uniram. Porem de todos os romances hespanhoes que mais se parecem com este é o da Bella mal maridada (Ochoa, Tesoro, p. 490) que já vem citado na Comedia de Rubena por Gi1 Vicente:

Cantará o Demo um grito

Das las mas lindas que yo vi.

O romance hespanhol principia assim:

La bella mal maridada

Das las lindas que yo vi.

Este romance foi muito imitado em Portugal pelos poetas cultos dos principios do seculo XVII.

14—Romance do Conde Ninho—Pertence pelo seu caracter maravilhoso ao cyclo da Tavola Redonda. Encontra-se na tradição oral dos Açores, e em Trás-os-Montes foi novamente recolhido. Na lição de Garrett (Rom. t. III, p. 7) não se encontra o cantar que o conde armou. Nesta versão o rei manda cortar as arvores que rebentam das sepulturas dos amantes, porque o não deixam ir á missa; correm d’ellas leite e sangue, que symbolisam os sexos; situação que faz lembrar, se não é directamente imitada, o mais popular de todos os romances da Europa na edade media Tristan e Yseult. Eis como essa deliciosa imagem se encontra na seguinte passagem do Tristan: «Et de la tombe de monseigneur Tristan, yssoit une ronce belle et verte et bien feuilleue qui alloit par dessus la chapelle, et descendoit le bout de la ronce sur la tombe de la reyne Yseult et entroit dedans. La virent les gens du pays et le comptèrent au roy Marc. Lo roy la fist couper par troys foys et, quant il l’avoit le jour fait couper le lendemain estoit aussi belle comme avoit aultre fois esté, etc.» (Tristan, Chevalier de la Table ronde, fol. CXXIV). Este mesmo maravilhoso se encontra no Lord Thomaz and fair Annet, (Percy, Reliques of ancient english poetry, t. III, p. 296); no Prince Robert, e no The Douglas Tragedy (Walter Scott, Minestrelsy of the Scottish Border, t. III, pag. 59, t. II, pag. 224). O romance de Tristão era conhecido já em Portugal no tempo de D. Diniz, como se vê do seu Cancioneiro:

Qual mayor poss’e o mui namorado