Triste, sey ben que non amou o seu,

Quant’eu vos amo......(Pag. 53.)

Tambem no Catalogo dos livros de uso de el-rei D. Duarte, (Sousa, Provas da Hist. Genealogica, t. I, p. 544) se encontra citado o livro de Tristam. As almas dos amantes voam na forma de pombas; nas lendas ecclesiasticas, e no hymno latino de Santa Eulalia, a alma do justo ascendia para o céo na apparencia do uma pomba. Portanto não é nem provençal, nem francez, ou normando, como pretende Garrett. O nome do conde Niño é talvez a forma hespanhola de conde menino. Garrett chama-lhe Nillo, e diz que não é nome portuguez; com tudo Bernardes, na Floresta, traz um nome de santo similhante, o que bastava para o povo o adoptar.

Quanto á realidade historica d’este romance, alguma se lhe pode assignar:

Na Chronica do conde D. Pedro Niño, narração meio historica meio fabulosa de Gutierre Diez de Games, se encontram vestigios do romance, porque ahì se fala em varias aventuras de amores. Como d’ali veio a tradição para Portugal, é facil de comprehender, porque o conde Niño foi casado com D. Beatriz, infanta portugueza. Quanto á origem do nome de Niño, diz a chronica: «Segund que de antigüa edad quedó en memoria, dícen qe vino en Castilla un Duque de Francia, é vivió é moró en ella grand tiempo, hasta que morió: é dejó dos fijos pequeñeruelos, é tomólos el Rey, é diólos á un Caballero que los criasse en su casa del Rey.

El Rey llamabalos siempre los Niños: é el su Ayo, cada que alguna cosa delibrar con el Rey para los Niños, siempre eram mentados Niños. D’esta guísa los llamaban las otras gentes: assi que á cada uno decían su nombre apertadamente, é decian encima el Niño.» (Cap. I, 10, 15, pag. 13). O romance fala de um cantar do conde Niño: na Chronica se lê: «Avia graciosa voz, é alta: era muy denoso eu sus decires» (Cap. X, p. 44). O casamento de Pedro Niño com D. Beatriz de Portugal, filha do infante D. João, causou-lhe immensos trabalhos, porque a elle se oppunha el-rei Regente de Castella: «E despues de la respuesta del Infante andubo Pero Niño mas de medio año por la corte é cerca d’ella, é vióse en assaz peligros muchas veces por ver á su esposa.» (Cap. III, Part. III, p. 185). No testamento do conde Pero Niño dispõe que elle e sua mulher sejam sepultados no côro da egreja de S. Thiago da Villa de Cigales. Crêmos ter apresentado os principaes traços historicos, para se vêr a formação do romance popular. Os amores do conde Niño foram cantados em verso por Villasandíno, poeta do tempo de Henrique III e João II, como se pode ver pelo Cancioneiro de Baena.

15—Romance da Promessa de Noivado—Veio-nos esta versão da Beira Baixa; é uma variante do romance a Peregrina, (Romanc. de Garrett, t. III, pag. 22). Apresenta collisões novas, taes como a de estar o cavalleiro já casado e com filhos. A versão de Garrett é artificial, porque a formou dos fragmentos que obteve do Minho, Extremadura e Trás-os-Montes, fundidos na lição do Porto: «Contudo aproveitei bastante d’elles para restituir o texto e dar nexo e clareza à narrativa.» (Pag. 20). Assim fundiu aquella situação de romance de Tristão e Yseult, que apparece no Conde Niño e na Rosalinda, de nascerem duas arvores na sepultura dos amantes, e que elle teve de explicar como logar commum dos romances populares. Na versão da Beira Baixa é só a amante que morre de tristeza. Garrett diz que nos Romanceiros Castelhanos nada se encontra parecido com esta singela historia. No Romancero General do Duran, o Conde Sol (n.º 327) tem muitos pontos de similhança com o nosso, e tanto que pela extensão d’elle deduzimos ser o nosso uma abreviação posterior. Foi Walter Scott o que primeiro descobriu a tendencia que têm os romances populares de se aberviarem.

16—Romance de Dom Aleixo—Se não é de origem hespanhola, o primeiro verso com que o romance principia faz nascer tal suspeita, posto que nas collecções castelhanas se não descubra. Sabe-o o povo de Lisboa e da Beira Alta. Nos manuscriptos do curioso Cavalleiro de Oliveira o encontrou Garrett, por onde restituiu os fragmentos das versões provincianas. (Rom. t. II, p. 91). Assim a lição que appresenta é bella, mas não é puramente popular, como elle proprio confessa: «Ainda assim, algumas raras palavras foram por mim conjecturalmente substituida.» Ha ali um mysterio que faz estremecer a quem lê: parecem palavras de um encantamento. A versão da Foz que recolhemos é estreme e revela-nos o lavor da imaginação popular sobre um thema commum. A dama pediu ao cavalleiro uma confidencia nocturna, em que elle morre por traição dos seus cunhados; Dona Maria mata-se ao pé do cavalleiro moribundo. Na lição de Garrett é ella que se toma de medo e mata o namorado. Uma é mais bella, a outra simplesmente verdadeira; mas na poesia do povo, segundo Grimm, á principal belleza é a sua grande verdade.

17—Romance de Dom Pedro—Apparece este romance com o nome de Helena no Romanceiro de Garrett, t. III, p. 40; anda na tradição oral da Beira Alta, Extremadura e Lisboa. Da Beira Baixa recebemos uma variante de uma belleza profunda e inexcedivel; é ali aonde a poesia popular portuguesa se conserva mais primitiva e completa. O romance de D. Pedro é mais simples e menos artificioso do que a versão de Lisboa. Aqui o cavallo branco, signal de lucto, demonstra a sua antiguidade. O final, sobre tudo, é a parte mais delicada; não são as penitencias do esposo, mas é elle que enterra a sua rosa branca, como quem planta uma flor, o lhe amollece a terra com as lagrimas dos olhos.

18, 19 e 20—Romances da Filha do Imperador de Roma.—Estes tres romances, colhidos em differentes provincias, completam a tradição. Já Garrett os tinha publicado, unindo-os e cortando aquellas partes em que a variante destruia a unidade da acção. A primeira parte foi colhida em Trás-os-Montes, terra fertil de tradições locaes, e aonde, logo depois da Beira Baixa, se encontram mais thesouros de poesia popular.