Obras, t. II, p. 249.
21—Romance de Dona Agueda de Mexia—Nos Cantos populares da Italia, de Caselli, pag. 204 e 207, encontram-se dois romances, que tem grande analogia com este, excepto no final, cujo desenlace não é pelo milagre. Creio mesmo que na tradição portugueza é juxtaposição de algum troveiro, como succedeu com o final do romance A Nau Catherineta da versão do Algarve. N’esta versão alemtejana falta a descripção da manhã de Maio que traz a lição de Garrett (Rom. t. III, p. 116). Nem ella tem caracter popular, antes parece um descuido de artista, que teve Garrett quando recompoz as duas versões da Estremadura e Alemtejo para formar o romance de Guiomar. Eis como um d’esses romances se canta no Piemonte:
«Nesta terra ha um mancebo, que pretendia casar; foi pedir a conversada, e não lh’a quizeram dar. Ficou com esta recusa tão afflicto e amargurado, que disse adeus aos amigos, e foi-se fazer soldado. Recebeu carta depois de pouco tempo passado. Uma carta bem fechada, em que lhe era declarado: «A tua querida amante está de cama a morrer» Foi-se ter com o capitão. Aos pés d’elle se foi ter: «Capitão, por vossa alma, a baixa me concedei.» O capitão lhe pergunta: «O que queres tu fazer?—Quero ir ver a minha amante, que está de cama a morrer.—Já vinha perto da terra, ouviu os sinos tocar. Tocam sinos n’um enterro, o defunto quem será? Ao entrar na sua terra, foi quando ouviu resar; era o esquife da amante, que levavam a enterrar. Mete esporas ao cavallo; tornou outra vez para trás; morreu-me o meu coração, vou ser outra vez soldado; «Adeos pae e adeus mãe, e tambem d’ella os parentes; se me dessem vossa filha, estariam mais contentes.»
Quasi que parece a forma primitiva da versão portugueza que reune um outro romance piemontez da Giordanina.
22—Romance do Casamento e mortalha—Foi pela primeira vez publicado por Garrett (Rom. t. III, p. 32). Não o encontrámos na tradição oral; extrahimol-o d’aquella artistica collecção para completar este simples monumento da poesia popular portugueza. De facto não apparece nos Romanceiros hespanhoes. Em um romance francez Le Roi Renaud, ha alguns longes de similhança; o rei volta da guerra, moribundo quasi; sua mãe vem ao encontro, e no meio da alegria o filho pede-lhe que faça uma cama ás escondidas de sua mulher, por que está para expirar. No restante diversifica a tradição (Du Puymaigre, t. II, p. 480). Nos cantos italianos existe tambem o romance do Conde Angilioni, que volta quasi moribundo da guerra; é até onde a situação é commum á França, Italia e Portugal (Tommaseo, Canti populari, t.I, p. 35).
23—Romance da Náu Catherineta—Nas antigas relações de naufragio temos a nossa poesia maritima com toda a profundidade do sentimento; que importa lhe não déssem fórma poetica? Sente-se uma alma em cada palavra do marinheiro, que faz a narração do que passou, com aquella resignação e serenidade de quem ha sofrido muito e tem uns alvores de esperança que o alentam,—o amor da patria, o culto das tradições gloriosas que procura conservar integerrimas. Com que uncção crente e piedosa não desenha elle os maiores transes! Os horrores do desastre fazem-lhe reconhecer um poder immenso, que adora com uma vehemencia e ardor capazes de fazer prodigios. Vêem a nau quasi a afundar-se: «Pelo que, como homens que esperavam antes de poucas horas dar contas a Nosso Senhor de nossas bem ou mal gastadas vidas, cada um começou a ter com sua consciencia, confessando-se summariamente a alguns clerigos, que ahi iam. A este tempo andavam com um retabulo e crucifixo nas mãos, consolando a nossa angustia com a lembrança d’aquella, que ali nos apresentavam. Isto acabado pediamos perdão uns aos outros despedindo-se cada um de seus parentes e amigos, com tanta lastima, como quem esperava serem aquellas as derradeiras palavras que teriam n’este mundo. N’isto andava tudo, que se não poderiam pôr os olhos em parte onde se não vissem rostos cobertos de tristes lagrimas, e de uma amarellidão e trespassamento de manifesta dor e sobejo receio, que a chegada da morte causava, ouvindo-se tambem de quando em quando algumas palavras lastimosas, signal certo da lembrança que ainda n’aquelle derradeiro ponto não faltava dos orphãos e pequenas filhos, das amadas e pobres mulheres, dos velhos e saudosos paes, que cá deixavam; e acabando cada um de satisfazer ao humano com este pequeno mas devido comprimento, todo o mais certo do tempo se gastava em pedir a Nosso Senhor remedio espiritual (que do corporal ninguem fazia conta).»[2] A lembrança viva representa a cada instante as passadas angustias. A côr da narração é a verdade. O genio aventureiro marítimo do povo portuguez está dentro d’aquellas paginas; cada palavra é um sentimento surprehendido na sua ingenuidade. O marinheiro ama a sua nau e confessa-o irreflectidamente: «levando a phantasia occupada n’esta angustia, e os olhos arrasados de agua, não podia dar passo, que muitas vezes não tornasse a trás, para ver a ossada d’aquella tão formosa e mal afortunada nau, porque posto que já n’ella não houvesse pau pegado, e tudo fosse desfeito n’aquellas rochas, todavia emquanto a viamos, nos parecia que tinhamos ali umas reliquias, e certa parte d’esta nossa desejada terra, de cujo abrigo e companhia, (por ser aquella a derradeira coisa que d’ella esperavamos) nos não podiamos apartar sem muito sentimento, etc.»[3]
Isto que o capitão da nau S. Bento sentia era o mesmo que se passava na alma dos velhos mareantes, que davam aos navios nomes domesticos, de paixão, com que esqueciam os que lhes tinham imposto no baptismo; o galeão S. João, que naufragou na carreira da India em 1551, tinha por alcunha o Biscainho;[4] a nau Aguia chamava-se vulgarmente Patifa.[5] Este nome da nau Catherineta, nome popular que Garrett julga um diminutivo de affeição dado por graça a algum navio favorito, parece ter a sua origem do galeão Santa Catherina do Monte Synai, que levou a infante D. Beatriz para Saboya. As memorias do tempo descrevem-n’o como digno da affeição popular, capaz de deslumbrar a imaginação do vulgo, e de fazer nascer uma paixão ao mostrar-se á vista penetrante do marinheiro, que sabe tão bem avaliar o bello das curvas, dos pontaes, e a mastreação elegante. O galeão de Santa Catherina começou a ter a sua popularidade nos versos de Gil Vicente, na tragi-comedia das Côrtes de Jupiter:
Leva gente muito fina,
Poderosa artilharia,
E a nau Santa Catherina