Que vae por graça divina

Co’a a prôa n’Alexandria.[6]

Em uma memoria contemporanea se lê: «e a infante duqueza embarcou esse dia, que eram 5 de agosto, na nau Santa Catherina do Monte Synai, nau de 700 toneis, muito formosa, e de dentro todalas camaras da infanta pintadas de oiro e forradas de bordados.»[7] Não é hypothese gratuita, ter a imaginação popular motivo sobre que idealisasse uma nau typica, como centro de acção para todos os seus romances maritimos. O genio do povo só exprime os seus sentimentos personalisando e localisando; d’aqui a multiplicidade das lendas, e ao mesmo tempo um fundo de verdade em todas ellas.

A lenda da Nau Catherineta não tem uma determinada origem historica; é a generalidade tetrica de todos os naufragios. Garrett inclina-se a achal-a no naufragio que passou Jorge de Albuquerque Coelho, vindo do Brasil no anno de 1556, em que a fome e a ancia de se devorarem e a resistencia do capitão reflectem muito as cores sinistras da lenda.[8] Tambem na relação, que por vezes havemos citado, do naufragio da nau S. Bento, se encontram ameaços do horror da antropophagia: «E porque havia tantos dias que não fizeramos resgate, nem metteramos nas boccas cousa que nome tivesse, constrangeu a necessidade a muitos serem de parecer que comessemos este cafre; e segundo se já soava, não era esta a primeira vez que a desventura d’aquella jornada obrigara a alguns a gostarem carne humana;[9] mas o capitão não quiz consentir em tal, dizendo que se cobrassemos fama que comiamos gente, d’alli até ao cabo do mundo fugiriam de nós, e trabalhariam de nos perseguir com muito mais odio.»[10] O facto de deitarem muitas vezes sola de molho, apertados pela fome, como conta ligeiramente a lenda popular, é frequente nas relações dos naufragios: «mas fizemos a ceia de umas alparcas que eu levava calçadas, a quem tambem a nossa não menor mingua fez que não menos gostosas as achassemos.»[11] O gageiro, que era o diabo que na lenda da Nau Catherineta levantava o temporal, tem alguma reminiscencia, ou melhor, parece ser fundado no grumete que no naufragio do galeão S. Bento se benze e chama pelo nome de Jesus ao ver erguerem-se uns enormes vagalhões a que elle não hade chamar senão diabos, que vêm em tropelia.

Em todas as narrações de naufragios ha mais ou menos uma sombra do quadro horrivel da Nau Catherineta; fomos apontando alguns factos, não para determinar origens, mas para reconhecer a generalidade da lenda.

Na poesia das Asturias encontra-se um pequeno romance chamado o Marinheiro; tem o mesmo colorido, similhante ao final da Nau Catherineta da versão do Algarve:

El marinero

Mañanita de San Juan

Cayó un marinero al agua,

—Que me dás marinerito,