Este acenou para alguem que estava num canto do quarto e na sombra.

—Ó Tico, disse elle, venha cá...

Levantou-se, a este chamado, um anão muito entanguido, embora perfeitamente proporcionado em todos os seus membros. Tinha o rosto sulcado de rugas, como se já fôra entrado em annos; mas os olhinhos vivos e a negrejante guedelha mostravam edade pouco adeantada. Suas perninhas um tanto arqueadas terminavam em pés largos e chatos que, sem grave desarranjo na conformação, poderiam pertencer a qualquer palmipede.

Trajava comprida blusa parda sobre calças que, por haverem pertencido a quem quer que fosse muito mais alto, formavam em baixo volumosa rodilha, apezar de estarem dobradas. Á cabeça, trazia um chapéu de palha de carandá[52] sem cópa, de maneira que a melena lhe apparecia toda arrepiada e erguida em torcidas e emmaranhadas grenhas.

—Oh! exclamou Cyrino ao ver entrar no circulo de luz tão estranha figura, isto devéras é um tic[53] de gente.

—Não anarchise[54] o meu Tonico, protestou sorrindo-se Pereira. Elle é pequeno ... mas bom. Não é meu nanico?

O homunculo riu-se, ou melhor, fez uma careta mostrando dentinhos alvos e agudos, ao passo que deitava para Cyrino olhar inquisidor e altivo.

—O Snr. vê, doutor, continuou Pereira esta creaturinha de Christo ouve perfeitamente tudo quanto se lhe diz e logo comprehende. Não póde falar ... isto é, sempre póde dizer uma palavra ou outra, mas muito a custo e quasi a estourar de raiva e de canseira. Quando se mette a querer explicar qualquer coisa, é um barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus peccados, onde apparece uma voz aqui, outra acolá, mais christãsinhas no meio da barafunda.

—É que não lhe cortaram a lingua, observou Cyrino.

—Não tinha nada que cortar, replicou Pereira. De nascença é o defeito e não póde ser remediado. Mas isto é um diabrete, que cruza este sertão de cabo a rabo, a todas horas do dia e da noite. Não é verdade, Tico?